Sexta-feira, 5 de Junho de 2009

Sobre a Coréia do Norte

A Coréia é dessas nações que intrigam o mundo ocidental. Nem bem os Estados Unidos elegeu seu “novo presidente bonzinho”, sob a nuvem negra de uma crise econômica, ainda reaparecem os norte-coreanos com aquela história de mísseis nucleares. Vaga fantasmagoricamente pelo imaginário dos comentaristas de noticiários internacionais que a chamada “ameaça nuclear coreana” pode ser somente mais um blefe, pois a nação já teria feito isso antes para barganhar nas suas relações internacionais. Então, uma boa pergunta seria: o que existe de novo com a Coréia do Norte para que a mesma mereça a atenção do mundo?
A resposta para a indagação acima não é simples, mas pode ser costurada aqui em linhas gerais.
Em primeiro lugar não há nada de novidade na Coréia do Norte, é verdade. Mas com o mundo há sim! A crise econômica global que está colocando em ‘cheque-mate’ até a maior potência do mundo não chegou sozinha. Chegou sob ameaça de uma ‘crise dos alimentos’, uma ‘crise do petróleo’ e uma ‘crise energética’. Isso sem falar na espetacular crise moral em que se meteu a maior potencia do mundo com Clinton e depois Bush em suas gestões sutilmente diferentes em truculência e igualmente desastrosas em política econômica. O mundo está atônito e em busca de novos caminhos, muito embora os sinais na economia demonstrem que esses caminhos estão longe de serem encontrados.
Outra novidade do nosso tempo é o embrutecimento, por meio da militarização, que os Estados Unidos iniciaram na gestão Bush e Obama ainda é muito vacilante em fazer recuar. Tal militarização pode ser vista pelo saldo bélico da estadunidense com a reativação da Quarta Frota, ocupação dos territórios do Afeganistão e do Iraque, Plano Colômbia, e mais de uma centena de bases militares pelo mundo inteiro. Para tal ação surgem as reações em forma de hostilidade e exemplo disso seria o Irã e sua política antiimperialista aglutinando lentamente aliados no Oriente Médio. A Coréia do Norte, com seus testes de satélites e mísseis, se tivessem sua agressividade multiplicada pela enésima potência ainda não significariam muito diante do quanto é agressiva e forte a militarização global protagonizada sob o manto fulo da ‘democracia americana’.
Ainda figuram entre as novas desse tempo doido, alem da ascensão da China que pleiteia a condição de maior potencia econômica mundial, um reordenamento comercial e diplomático que faz emergir um leque de países como Índia e Brasil à cobiçada condição de bons parceiros comerciais. Na medida em que um número maior de países ganha espaço, também se faz necessário ouvi-los quanto a questões importantes para o globo, daí a articulação do G-20, por exemplo.
É nesse contexto que a Coréia do Norte realiza seus testes de lançamento de mísseis e satélites, e põe em funcionamento suas estruturas de geração de energia nuclear. É bom lembrar que quando o Irã tentou conquistar autonomia para produzir energia nuclear o mundo ocidental ficou alucinado. Bom lembrar também que quando o Brasil amadureceu suas técnicas de exploração de energia nuclear, a ONU e outros organismos internacionais forçaram a barra para não permitir isso. Daí é oportuno fazer uma última pergunta: por que a Coréia do Norte não pode fazer desenvolver a sua tecnologia? Por que o mundo insiste em isolar cada vez mais aquela nação que o ocidente acusa de radical e fechada?
Tais perguntas não são respondidas num bate-papo desses, mas uma coisinha precisa ser dita: a civilização, tal como é, ou aprende a respeitar cada povo com suas opções, seus governos, sua história e suas escolhas, ou o já temido e incerto futuro do mundo poderá nem existir.

Quarta-feira, 13 de Maio de 2009

Pandemias em tempos de globalização

O nível de contato entre as várias partes do globo pressupõe maior integração e intimidade entre os povos. Isto se dá por meio dos fluxos da globalização, que são os movimentos permanentes de pessoas, mercadorias, informações e outras coisas pelo mundo todo. Um caso como o da Gripe A (ou Gripe Suína) é passivo de atravessar de epidemia para pandemia em função do fluxo de pessoas que transitam pelo México e outros lugares onde o vírus está presente.

A Gripe A, cujo antiviral já existe, mas está patenteado com exclusividade pelos laboratórios da Roche e Glaxo (empresas entre as 4 maiores farmacêuticas do mundo), foi praticamente encubada nos criatórios mexicanos de suínos. Por lá está a Smithfield Foods, que é a maior do mundo no ramo e figura a anos nas denúncias de contaminação e agressão ao meio ambiente e a saúde das populações próximas aos criatórios. Se a criação dos porcos movimenta um mercado de milhões, o que dirá do o controle dos antivirais e todo um processo em curso de redirecionamento de mercado consumidor para outros parques produtivos e produtos concorrentes. Esse aspecto econômico põe a possível pandemia de Gripe Suína em patamar diferente de outras que lhe antecederam. Ela pode vir a matar bem menos, mas certamente causará um frenesi no mercado mundial de cima a baixo.

Ainda se apresenta como agravante o fato de a Gripe A, diferentemente de Gripe Espanhola (1918), ou Gripe Asiática (1957) e a Gripe de Hong Kong (1968), se apresenta originária num ambiente absolutamente possível para a recombinação viral, inclusive com a Gripe Aviária. Este, tanto quanto qualquer outro, é o grande problema científico de pandemias de gripe em tempos atuais.

A Organização Mundial de Saúde - OMS tem uma escala para indicar o grau de contaminação e classificar pandemias que varia de 1 a 6, estando a gripe suína situada entre 3 e 4, não sendo ainda pandemia, mas indicando a forte possibilidade de seu desenvolvimento.

Posto desta forma fica claro o quanto as pandemias em tempos de globalização se singularizam numa tendência de menos matar e mais confundir. Ilustra bem isso a situação de alarme instalada no Brasil, onde a Gripe A matou somente 4 pessoas até o momento e pouco mais de 150 casos são monitorados, enquanto isso a gripe espanhola matou no começo do século passado no Brasil 300 mil pessoas. Mas em função do anúncio do risco emergente o governo federal editou medida provisória liberando mais de R$ 140 milhões para combater a pandemia.

As pandemias são raras. Devem ser combatidas de forma preventiva. A Organização Mundial do Comercio e a Organização Mundial de Saúde devem ser também responsabilizadas por não se pronunciarem em tempo hábil sobre os riscos de doenças existentes em função de ambientes super explorados na criação de animais como o que se encontra no México, uma vez que os interesses do mercado não devem se sobrepor ao bem estar da humanidade.

Terça-feira, 5 de Maio de 2009

Mitos e verdades sobre enchentes em Teresina/PI

Teresina, capital do Piauí, é uma cidade de 800.000 habitantes, com uma renda per capta de cerca de R$550,00 reais, fica situada entre dois rios perenes: o Parnaíba (dividindo Piauí e maranhão) e Poty (cortando a parte norte do Estado, do Ceará até desembocar no Parnaíba). Tal dádiva faz com que Teresina tenha condições de gozar da abundância do recurso água. Mas emana daí o primeiro mito sobre as enchentes de Teresina: dizer que Teresina alaga somente porque os rios recebem mais água do que seus leitos podem segurar.
É mito porque, muito embora as margens urbanizadas e desmatadas dos rios de fato tenham comprometidas suas condições de conter toda água em seu leito, das 16 áreas afetadas pelas enchentes, 9 não são as margens dos rios. Além disso, essa contagem não trata das enchentes pontuais e temporárias que ocorrem em diversos pontos das vias mais trafegadas da cidade. Frente a esse mito, a verdade é que o descuido dos sucessivos governos municipais do PSDB para com a utilização sustentável das margens dos rios significou um golpe mortal no perímetro urbano dos rios que banham a cidade. Mas é verdadeiro também que as chuvas somente provocam cheias urbanas porque as cidades, ao passo em que impermeabilizam o solo (por meio das construções em concreto e pavimentação), não constroem galerias para escoamento de água. A prova disso é o pronunciamento do Prefeito Silvio Mendes largamente divulgado pelos meios de comunicação, onde o mesmo afirma que levará ao Presidente da República vários projetos de construção de galerias na cidade. A pergunta é, então, por que a prefeitura organizada não construiu galerias antes?
O segundo mito é o de que a culpa das enchentes e da calamidade que geram é das pessoas que insistem em residir nos locais mais inóspitos e propensos a enchentes. A história recente de ocupação urbana do solo em Teresina é marcada pela tentativa de deslocamento das famílias pobres que, habitando zonas mais valorizadas, são sistematicamente empurradas para vazios demográficos distantes onde a terra é barata e a conseqüência direta é o favorecimento dos especuladores imobiliários que tem seus rincões valorizados com a inauguração de bairros distantes. O isolamento dessas levas de população não lhes propicia proximidade do emprego, tão pouco dos aparelhos e serviços urbanos básicos. Nesse contexto, não é de se admirar que as pessoas prefiram se submeter ao risco das enchentes do que se atirar ao abandono nos limites da cidade.
O terceiro mito tem relação com a popularidade do prefeito e do esquema que a quase duas décadas domina o Palácio da Cidade. Na enchente do ano passado, tão forte quanto essa, o Prefeito chorava em frente às câmeras de TV, na enchente atual ele navegou de canoa trechos do rio Poty (dizia ele que “queria ver como estava mesmo a situação”) e limitou-se a orientar os cidadãos a ficarem em suas casas. O Prefeito diz que não é político, na tentativa de se diferenciar em discurso daquele modelo de político corrupto e oportunista, mas não constrói galeria porque é obra que fica em baixo da terra e ninguém vê. Essa é a antiga prática dos políticos coronéis que urbanizaram o nordeste sem esgotos e galerias, preocupando-se somente com obras monumentais. Ilustra bem essa similaridade a construção caríssima do Balneário Curva do São Paulo, pela prefeitura, inaugurado com mega-show de bandas de forró e espetáculo pirotécnico, que agora todo ano fica embaixo d’água.
Até agora 1.500 famílias já foram atingidas, cerca de 500 já são atendidas pela prefeitura (déficit de mil famílias no prejuízo, dados da própria prefeitura). Pontes da cidade interditadas, trechos da Miguel Rosa (principal via de acesso para o Centro, Zona Sul e Sudeste da capital) ficam por horas inundados depois de grandes chuvas, o bairro Mocambinho (um dos mais populosos) teve a região próximo a principal avenida que lhe contorna, totalmente alagada. É assim que segue Teresina, mergulhada em água e sufocada por um modelo de gestão pública que, a mais de uma década, já não dá resposta para os problemas da cidade (mesmo aqueles mais rotineiros, como as enchentes urbanas).


EM TEMPO: No dia 8 de abril de 2008 publiquei num blog que insisto em publicar, também no jornal Diário do Povo, artigo onde mostro cálculo comparando gastos constantes na prestação de contas pública da prefeitura de Teresina, afirmando que as sucessivas administrações não gastam com galeria e nem com medidas diretas de combate a cheias urbanas. Para ler tecle aqui.

Sexta-feira, 17 de Abril de 2009

Criança malhando Judas... Apologia a violência travestida de manifestação cultural!


No último sábado de aleluia, viajando pelo Piauí, percebi que praticamente todas as comunidades praticavam a malhação do Judas. Foi aí que mi coloquei a refletir sobre a questão. Muito embora a mensagem mais original do cristianismo pouco tenha haver com violência no seu significado mais usual e nada tenha haver com vingança, o ritual de malhação do Judas nada mais é hoje do que uma (entre as muitas que consistem atualmente) forma de apologia a violência.
Observei respeitosamente algumas partes da Bíblia que relatam o momento em que Jesus dá orientações e esclarecimentos finais ao seu colegiado (os apóstolos), logo quando anuncia que seria traído e negado. Tal leitura surpreendentemente branda me mostrou duas coisas: uma primeira tem relação com a mensagem que se resumiria apropriadamente por meio da frase “amem uns aos outros”, num contexto de construção do exemplo de vida; a segunda tem relação com o fato de que, pelo menos não consegui (com minha inexperiência no assunto) detectar um resquício ou rastro sequer de orientação para uma conduta de vingança por parte do exemplo de Jesus. Para alem disso reside também um detalhe deveras oportuno nessas reflexões: Sábado de Aleluia deveria ser um dia de louvar o Senhor, pelo menos pelo significado mais original da expressão ‘aleluia’ – hallelu-yahweh no hebraico.
Num esforço de permanência, inerentemente natural nas mais diversas manifestações culturais, os Judas de palha ou pano recebiam formas, mascaras e nomes de diversas figuras contemporâneas antipáticas para diferentes setores da sociedade. Isso excitava mais ainda os malhadores que desprendiam agora a sua revolta com “mais justificativa”. Sob pauladas, pedradas, chutes e gritaria os bonecos iam sendo postos a baixo e completamente trucidados. Ficando para o dia seguinte somente partes sem forma expostas como ressaca da farra tosca e truculenta que somente aparece nas manhãs do Domingo de Páscoa.
Também é oportuno lembrar que o costume ou tradição de Malhação do Judas, segundo algumas versões viáveis historicamente, foi trazido pelos colonizadores espanhóis e portugueses (aliás, foi sob ordem dos portugueses que gente como Tira Dentes foi esquartejado publicamente, não o seu traidor Silvério dos Reis). A construção de uma cultura de violências tão vastamente explicitada nos dias atuais entre os brasileiros remonta nossa infeliz colonização, pois é primitiva do ponto de vista civilizacional; é também mesquinha no sentido de não generosa, pois se pauta na vingança; e, por último, é covarde porque o Judas (mesmo quando representando os desafetos) está sempre amarrado e imóvel.
Feito as devidas argumentações deve então ficar claro que ritos, costumes e tradições, por mais que se renovem e mudem, cumprem o papel de repassar valores e informações. Os valores tratados na Malhação do Judas expõem o pior que existe na sociedade e, quando envolve crianças (o grande público da zagaia!), educa para a vingança, covardia e violência.
Quando alguém falar por aí em reduzir idade penal ou combater pela força e a massa gigantesca de crianças e adolescentes em conflitos com a lei, vou perguntar se essa pessoa se educou malhando os Judas do Sábado de Aleluia.

Terça-feira, 7 de Abril de 2009

Chomsky: Os EUA precisam da Otan para expandir a guerra

No dia do 60º aniversário da Otan (Organização do Tratado do Atlântico Norte, também chamado "Aliança Atlântica", criada dia 4/4/1949), Noam Chomsky conversou com Robert Harneis, para Russia Today, sobre Kosovo, Afeganistão e Otan – por que ainda existe e o futuro. O professor Chomsky, do MIT, é encarniçado crítico da Otan e da política dos EUA.

Pergunta que se faz cada vez mais frequentemente é "para quê serve a Otan?" Por que, na sua opinião, o pacto sobrevive ainda, 20 anos depois do fim da Guerra Fria?

Chomsky: Sim, essa é a pergunta certa. Pode-se perguntar por que sobreviveu um mês, depois do fim da Guerra Fria. Por que sobreviveu? Se se olha para trás, no colapso da União Soviética, Gorbachev fez uma concessão realmente espantosa. Concordou com que uma Alemanha unificada passasse a integrar a Otan, uma aliança militar. Isso é muito importante à luz do século passado. Primeiro, que a Alemanha, sozinha, virtualmente destruiu a Rússia, duas vezes; e a Alemanha, apoiada por uma aliança militar hostil, centrada no mais fenomenal poder militar da história... isso é uma ameaça real. Pois mesmo assim, Gorbachev concordou.

Mas houve uma condição: em termos bem claros, acertaram que a Otan não poderia ser expandida para Leste, de modo que a Russia tivesse, pelo menos, uma espécie de zona de segurança. E George Bush e o então secretário de Estado dos EUA, James Baker concordaram: a Otan não avançaria uma polegada em direção ao Leste. Gorbachev também propôs uma região livre de armas nucleares na região, mas os EUA nem consideraram a ideia. Acho que sequer responderam à proposta. E foi assim. Acabou a União Soviética. Fim de jogo.

Então... o que fez o governo Bush? Lançou um documento sobre defesa estratégica em que se dizia, efetivamente, que a maior ameaça, então, seria, de fato, o avanço tecnológico dos países do Terceiro Mundo; e que era preciso preservar a superioridade da base tecnológico-militar dos EUA, ameaça que ninguém pensaria em atribuir ao Kremlin. É onde se vê que o tratado original da Otan envolvia uma mentira. São negócios, como sempre, no que tenha a ver com a Otan.

Como o senhor vê a situação atual no Afeganistão?

Chomsky: Em minha opinião, Obama parece mais violento e agressivo que Bush. Praticamente seu primeiro ato implicou ataques no Afeganistão e no Paquistão, nos quais muitos civis foram mortos. Ataques completos, quero dizer, com armamento pesado. Os EUA estão apoiando os taliban e o terror. Obama quer ampliar a face militar da guerra do Taliban contra a grande população pashtun. Isso não é o que os afegãos desejam.

Se se considera a situação do presidente Karzai, sua primeira mensagem a Obama foi um pedido para que parasse de matar afegãos. Interessante que, no instante em que esse pedido foi divulgado, Karzai tornou-se impopular no ocidente. Antes, era muito admirado; comentava-se sua elegância, que era homem agradável etc. De repente, tornou-se incompetente, corrupto... De fato, os EUA planejam derrubá-lo. Isso já está declarado. Os EUA querem agora introduzir lá o que chamam de "um outro administrador". Karzai será provavelmente 'demitido para cima'.

E o que acontecerá? Livrar-se-ão de Karzai?

Chomsky: Os EUA estão claramente expandindo o componente militar da guerra, agora, com mais 21 mil soldados no total. A Inglaterra com certeza acompanhará. Querem controlar os poderes da Otan e aumentaram os ataques com mísseis e outros armamentos no Afeganistão e no Paquistão.

Há um movimento afegão pró-paz – é bastante representativo e é difícil avaliar a extensão desse movimento. Estima-se que seja muito amplo. Pedem o fim da violência e mais atenção à reconstrução e ao desenvolvimento. Se se lêem as declarações de Karzai, e também Zadari, elogiando formalmente a nova abordagem de que Obama fala, se se analisam as próprias declarações... há detalhes importantes. Só falam de ajuda e desenvolvimento – que, me parece, é a direção certa a seguir. Reconciliação entre todos os afegãos não significa que os EUA decidam quem conversará com quem; significa que os afegãos decidam.

Quanto ao Kosovo, os países da Otan repetem que seria caso ‘sui generis’, caso especial, não um precedente a ser seguido por outros possíveis novos países. O senhor concorda?

Chomsky: Kosovo foi caso especial, porque foi a primeira que a Otan – principalmente os EUA – atacaram Estado dentro da Europa, com pretextos, de fato, quase cômicos. O ocidente envolveu-se nessa questão, sobretudo intelectuais ocidentais, como ânimo religioso, de fanatismo religioso. Não se consegue discutir o assunto. Mas os fatos são muito evidentes. Há enormes quantidades de registros do Departamento de Estado, da Otan, de monitores, e todos dizem a mesma coisa. Foi baixo o nível de violência dos ataques do Exército de Libertação do Kosovo (Kosovo Liberation Army, KLA), da Albânia e das forças sérvias, as disputas não eram pesadas e sabiam que, se respondessem, só fariam aumentar muito o nível de atrocidade, como, de fato, se viu acontecer. O General Clarke, que estava no comando, preveniu-os: "Se reagirem, eles reagirão em campo, aqui. Não vão bombardear Washington. Só conseguirão aumentar o nível das atrocidades". Isso, exatamente, foi o que aconteceu.

Quando Milosevic foi acusado, durante a guerra, foi acusado quase integralmente por crimes cometidos depois do início da guerra. Mas havia opções diplomáticas. Dentre os mais altos funcionários do governo Clinton, Strobe Talbot, subsecretário de Estado para o Leste Europeu, encarregado do que estava acontecendo então, já disse – e está bem evidente nos documentos – que o ataque não foi motivado pelos kosovares (como se via nos primeiros documentos), mas porque a Servia não adotara as reformas socioeconômicas exigidas. Os intelectuais ocidentais agarraram-se a isso com paixão.

Você lembrará que, naquele momento, houve quantidade imensa de declarações muito embaraçosas sobre a nobreza, sobre uma fase excepcionalmente nobre da política exterior dos EUA, sobre como os Estados mais 'iluminados' lideravam o mundo rumo a uma nova era na qual as pessoas seguiriam princípios e valores, e tal e tal – foi terrível.

Não lembro de outro momento semelhante na história intelectual; depois, foi muito difícil descer daquelas alturas e dizer "Desculpe, pessoal! É tudo diferente." Então, tiveram de continuar aferrados à primeira explicação.

Como o senhor vê a rivalidade entre a Otan e a ONU?

Chomsky: Não há rivalidade alguma. A ONU faz o que as grandes potências – os EUA, sobretudo – permitem que ela faça. Lembre-se que a Iugoslávia tentou levar a questão contra a Otan à Corte Internacional. Não conseguiu, por razões bem interessantes. Um congressista norte-americano declarou que, se, algum dia, alguém se atrever a acusar os EUA [na Corte Internacional] "Nós tomaremos o prédio da ONU e o destruiremos, tijolo a tijolo, e jogaremos tudo no East River".

Uma das razões para a aparentemente ilimitada expansão da Otan é a criação de uma espécie de exército mercenário, que poderia combater sem necessidade de alistamento nos EUA? Como, por exemplo, a Geórgia mandar o terceiro maior contingente para ocupar o Iraque?

Chomsky: O Pentágono foi contra o serviço militar. Desde antes do Vietnam querem livrar-se dele. No Vietnam, os EUA cometeram um erro tático: tentaram lutar guerra colonial com um exército de cidadãos. Tampouco é possível fazer guerra colonial com mercenários mal treinados. Se se analisa a Revolução Americana contra os ingleses no século 18, vê-se que muitos dos soldados eram hessianos, de Hesse, Alemanha, muitos dos quais mercenários. Porque há outro tipo de mercenários, como a Legião Estrangeira, francesa; ou os Ghurkas, britânicos. Guerras coloniais são brutais demais, duras demais paras soldados regulares. Sim, os EUA querem recrutar nações do Leste Europeu para que se unam à Otan porque os generais pensam que estarão dispostas a mandar soldados lutar guerras coloniais.

Como o senhor vê o desenvolvimento futuro da Otan?

Chomsky: Se a pergunta é "Como deve ser o futuro da Otan?" a resposta é: "imediata desmobilização". Mas não há sinais de mudança. Você deve ter observado que, apesar da crise financeira, desde a posse de Obama não se fala de qualquer movimento na direção de limitar os gastos militares dos EUA. Talvez cancelem alguns projetos mais caros, de alta tecnologia, como a compra do bombardeiro F22. Esse tipo de avião não é necessário no tipo de guerra que há hoje.

Antes de Bush deixar a presidência, aprovou-se verba de 30 bilhões para apoiar Israel durante os próximos dez anos. Israel, hoje, é como uma legião avançada do exército norte-americano. O plano é aumentar o número de soldados em campo. Esses são os soldados de que eles precisam para as guerras que planejam. Durante a invasão de Gaza, os EUA planejavam entregar milhares de toneladas de munição a Israel, em navios alemães, via a Grécia. Os gregos impediram a entrega. Tiveram de achar outra via, mas o Pentágono declarou que a munição seria para fazer reservas, para próximos conflitos.

O senhor acredita nisso?

Chomsky: Ah, sim. Aquela munição não afetaria a luta em Gaza naquele momento. É verdade. Planejam já as guerras futuras. Quanto ao futuro da Otan, tudo dependerá da ação dos cidadãos – como a Conferência Anti-Otan, em Estrasburgo.

Terça-feira, 31 de Março de 2009

Gandhi na África e a luta popular via Satyagraha

Gandhi sendo confrontado por um policial ao liderar os mineradores hindus em greve de Newcastle ao Transvaal em protesto contra o "Ato da Imigração" em 1913.




A maior rede de TV do Brasil investe novamente numa novela que mostra a cultura alheia como uma grande maravilha do mundo, é a novela das oito “Caminho das índias”. No que pese ser legítimo dizer que a cultura indiana é deveras interessante e o elenco é formado de profissionais experientes e talentosos, nunca é pouco alertar para as distorções contidas na forma de “contar a história”. Preocupei-me em construir algumas linhas sobre o assunto porque daqui poucos dias o mundo (com muita justeza) vai rememorar o aniversario de nascimento de Mohandas Karamchand Gandhi, o Mahatma Gandhi. Mesmo que a citada novela ainda não tenha abordado o tema, me adianto para blindar a história contra as fantasiosas distorções aburguesadas da Rede Globo e retomo a passagem de Gandhi pela África. Quero lhes mostrar um Gandhi que é rebelde, radical, lutador e progressista para o seu tempo.

Era 2 de outubro de 1869 (a 140 anos atrás) quando nasce na Índia ocidental o Gandhi. Pouco mais de duas décadas depois ele se forma em Direito em Londres. Quando volta a Índia e tenta exercer a profissão. Sua mãe já é falecida e Gandhi não tem sucesso como advogado. Algumas fontes atribuem seu insucesso a uma timidez, que em minha opinião não tem fundamento, pois o mesmo se revela militante político em condições muito adversas onde os tímidos não têm vez. Logo que percebeu não ter êxito profissional na Índia, foi pela primeira vez à áfrica do Sul a mando de uma firma na qual trabalhava. Foi nessa primeira ida à áfrica do sul onde Gandhi provou o amargo da discriminação e foi exercendo a sua profissão que ele ganhou notoriedade e se estabeleceu na África por praticamente 20 anos. Era o Gandhi agora um hindu na áfrica da discriminação em luta contra a injustiça.

Em 1897 Gandhi traz para a áfrica esposa e filhos e é espancado logo na chegada por um grupo de brancos. Alem de ameaças e violência, os clientes de Gandhi eram ameaçados também para que o mesmo não tivesse serviço. Em 1906 Gandhi e outros hindus lideram um grande movimento que desembocaria em vários e fortes movimentos grevistas, quando orientavam o povo hindu na África do Sul a não se registrar (ordem dada pelo governo para aprimorar instrumentos totalitários de discriminação branca contra os hindus e outras minorias trabalhadoras). Simplesmente negar-se a se registrar foi a forma de luta mais coerente, pois alem das graves, como por exemplo, uma ação violenta das massas discriminadas era impossível visto que os hindus não tinham armas nem influência internacional (a nação indiana mesmo, vivia sob julgo colonial inglês). Essa era a Satyagraha (força da verdade), técnica que implicava simplesmente em não obedecer e ponto final. Dessa grande primeira experiência de luta em massa Gandhi saiu preso mais uma vez.

O movimento de luta pelos direitos hindu na África do Sul cresceu muito e Gandhi amadurecia fiel a valores que trazia do berço e a sua consciência social. Marcadamente, Gandhi conduz esse momento da sua vida numa estrada justamente dialética de luta pela paz e paz para luta. Estando na áfrica, vivendo sob dura perseguição, correndo muitas vezes risco de vida e sucessivas prisões, Gandhi publicou um jornal político chamado “Opinião Indiana” onde agregava Hindus na áfrica em torno de bandeiras não discriminatórias e auto-afirmativa. Em 1913 Gandhi lidera uma onda de greves gigantesca que termina lhe rendendo mais uma prisão e condenação a trabalhos forçados. A soltura de Gandhi mobilizou diversos seguimentos, inclusive missionários cristãos.

Gandhi volta à índia em 1915 para organizar novas e grandes greves contra os exploradores ingleses. Mas deixa várias vitórias na África do Sul na luta contra a discriminação. Um exemplo das conquistas do Satyagraha e das greves foi o reconhecimento de casamentos, fossem eles realizados em qualquer religião, coisa que antes das lutas radicais lideradas por Gandhi não era permitido. Talvez o maior legado de todos seja a herança de luta abnegada e radical de Gandhi, unindo pessoas e permanecendo fiel aos seus ensinamentos de berço.

Vejam só com a imagem do Mahatma Gandhi é injustamente associada ao “pacifista” permissivo e sem espírito de luta... a idéia é associar Gandhi a um modelo católico conservador bem europeu ou um sonhador metido a ‘pop star’ como gostam os brancos protestantes americanos. O que as elites nunca vão encorajar é que Gandhi foi por muitos anos um homem de luta dos mais radicais.
A passagem de Gandhi pela áfrica mostra que este personagem valioso da história dos povos era forte e valente, lutador e político, agitador e pensador militante de causas humanísticas com uma rebeldia incontrolável.

Como sei que todos gostam dessas frases “celebres ditas por gente célebre”, vejam esses trechos de depoimentos e escritos de Gandhi:


“Minha devoção à verdade empurrou-me para a política; e posso dizer, sem a mínima hesitação, e também com toda a humildade que, não entendem nada de religião aqueles que afirmam que ela nada tem a ver com a política.”


“Não-violência não quer dizer renúncia a toda forma de luta contra o mal. Pelo contrário. A não-violência, pelo menos como eu a concebo, é uma luta ainda mais ativa e real que a própria lei do talião - mas em plano moral.”


“A não-violência não pode ser definida como um método passivo ou inativo. É um movimento bem mais ativo que outros e exige o uso das armas. A verdade e a não-violência são, talvez, as forças mais ativas de que o mundo dispõe.”


“Aquele que não é capaz de governar a si mesmo, não será capaz de governar os outros.”
“Odeio o privilégio e o monopólio. Para mim, tudo o que não pode ser dividido com as multidões é "tabu".”


“A desobediência civil é um direito intrínseco do cidadão. Não ouse renunciar, se não quer deixar de ser homem. A desobediência civil nunca é seguida pela anarquia. Só a desobediência criminal com a força. Reprimir a desobediência civil é tentar encarcerar a consciência.”
“Todo aquele que possui coisas de que não precisa é um ladrão.”


“O meu patriotismo não é exclusivo. Engloba tudo. Eu repudiaria o patriotismo que procurasse apoio na miséria ou na exploração de outras nações. O patriotismo que eu concebo não vale nada se não se conciliar sempre, sem exceções, com o maior bem e a paz de toda a humanidade.”

Quarta-feira, 11 de Fevereiro de 2009


A rede de contatos