sexta-feira, 30 de outubro de 2009

A Lei Transportes Coletivo e Urbanos de Teresina que tramita na câmara de vereadores de Teresina não representa os interesses populares.

Quase que escondidinha, se esgueirando pelos cantos da Câmara de Vereadores de Teresina, segue seu curso obscuro a Lei Transportes Coletivos e Urbanos de Teresina (Projeto de Lei nº 062/09) imposta pelo Prefeito e que deve ser aprovada norteando a organização do serviço de transporte coletivo em Teresina. O denso documento é revelador da inércia em que se encontra a prefeitura de Teresina quando não propõe nada novo para a gestão desse setor.

Os vereadores de Teresina, por sua vez, traçam emendas ao documento que alteram quase nada o conteúdo mais nuclear o Projeto de Lei nº 062/09. Isso faz crer que a Lei Transportes Coletivo e Urbanos de Teresina deve ser aprovada, o sistema de transporte coletivo de Teresina deve continuar o mesmo e a população deverá continuar sofrendo com os conhecidos problemas que esse serviço sempre apresentou.

Os movimentos sociais, por sua vez, não devem aceitar tal situação sem agir. Tanto a prefeitura quanto a Câmara de Vereadores tentam calar as entidades sindicais e populares com o discurso prepotente e malicioso que diz que o assunto deve ser tratado tecnicamente, dado sua complexidade. Como se somente tecnicamente fosse possível perceber o quanto é caro, desconfortável e insuficiente o transporte coletivo de Teresina.

Diante dessa situação os movimentos sociais devem indicar as diretrizes de uma nova lei de transporte coletivo para Teresina. Essas diretrizes devem representar os anseios populares em sintonia com a necessidade de permitir uma cidade mais dinâmica. São elas as seguintes:

- Uma boa Lei traz como elemento central o papel do Conselho de Transporte na definição do preço da passagem e não como uma competência exclusiva do prefeito. Isso implica em democratizar a decisão mais importante de todas e permitir que diferentes setores da sociedade sejam ouvidos;

- A licitação para esse serviço deve permitir contratos improrrogáveis por um período máximo de 10 anos, valorizar a livre concorrência, o preço justo e qualidade. Isso impede a formação de quartel e provoca a melhoria do serviço e barateamento da passagem;

- As linhas de ônibus, vans e metrô devem ser integradas imediatamente para que a população possa se apropriar de toda a cidade integrando as comunidades e as diferentes regiões. Integrando linhas integramos a cidade, unimos as comunidades e reforçamos a identidade da população com o município e suas potencialidades;

- O sistema de transporte coletivo de ter como máxima a Mobilidade Para Todos, garantindo ônibus em todos os horários e locais da cidade. Na medida que a cidade se desenvolve se torna mais necessário assegurar a mobilidade o contrário disto significa a estagnação do município;

- Se faz necessário assegurar Acessibilidade Integral para suprir deferentes necessidades especiais. Não somente cadeirantes devem ser preocupação do sistema de transporte, as diversas necessidades especiais devem ser observadas (pessoas que não enxergam ou não escutam tem dificuldades reais para utilizar-se do serviço de transporte coletivo de Teresina);

- Tarifa reduzida nos finais de semana podem ser elemento decisivo para garantir mais integração da cidade. Trabalhadores e trabalhadoras de Teresina podem e devem usufruir mais dos valores da cidade no seu final de semana, melhorando a qualidade de vida de todos.

quarta-feira, 7 de outubro de 2009

De Olho na América Latina II - As Reveladoras Sombras em Honduras...

O mundo globalizado é, decididamente, muito estranho! O caso de Honduras particularmente guarda em si a oportunidade de desnudar o quanto é prenhe de contradições a geopolítica mundial. Especialmente se pode ilustrar tal afirmação olhando bem três questões reveladas a partir do golpe: os descaminhos da mídia (pretensamente) livre; a presença de um golpe contra a democracia na América Latina nos dias atuais em contraposição a onda progressista de eleições presidenciais; e, por último, o Brasil protagoniza hoje o debate de grandes temas globais e regionais.
Quanto a mídia, especialmente a televisiva, marcadamente a Rede Globo, faz-se necessário lembrar que uma componente das críticas feitas aos governos venezuelano, cubano e boliviano, é a “falta de liberdade da mídia”. Quando os telejornais colocam o violentíssimo golpe em Honduras como algo que seria somente institucionalizado por atos burocráticos, eles negam ou escondem, ou tentam amenizar, o estado de sítio, as prisões e desaparecimentos de jornalistas, o fechamento de rádios e jornais e demais atrocidades de uma ditadura golpista. Então a pergunta emergente é: onde fica o discurso da liberdade de imprensa e seus implacáveis defensores? É possível precisar, diante da existência de dois pesos e duas medidas, que a tal mídia livre do mundo globalizado não é regra para os grandes grupos econômicos e seus interesses políticos internacionais. Empresas de comunicação não são confiáveis e a mídia séria e livre somente tem oportunidade de plena existência enquanto não se vincula a tradicionais interesses econômicos. Ainda sobre esta questão, vale lembrar a importância dos jornais alternativos, dos blogs e outros instrumentos que aparecem como porosidades em determinados pontos do bloco firme e frio da poderosa e nada livre mídia global.
Quanto a presença de um golpe contra a democracia na América Latina nos dias atuais muito se pode falar, mas uma coisa é destacadamente preocupante: a articulação internacional que sustenta o golpe. É possível perceber isto pela omissão do presidente Obama que dá opinião sobre tudo, menos contra o golpe em Tegucigalpa. Meios de comunicação alternativos aos já consolidados no mercado internacional denunciaram a presença da CIA articulando com os atores do golpe (do exercito ate as igrejas) bem ao modelo das ditaduras militares da América Latina da segunda metade do século passado. É a história julgada e condenada no passado se repetindo como se o mundo não mudasse. O golpe em Honduras, embora pareça, não é extemporâneo e sinaliza muito mais como um laboratório desesperado experimentando uma forma tradicional de manter ditames imperialistas em meio a situações de governos progressistas eleitos pela via democrática. É, de forma coloquial, um “teste” para saber se uma coisa dessas vinga em dias atuais.
Uma boa nova é o Brasil protagonizando a construção de uma solução democrática para mais um episódio de valor e dimensões continentais como esse golpe. Uma aparição em formato diferente o governo brasileiro teve durante a tentativa de golpe na Venezuela há alguns anos atrás ajudando a reequilibrar a vida política daquele país, reforçando as conquistas democráticas daquele povo e do seu governo. Agora o governo brasileiro eleva gradativamente o tom contra o golpe e seus cúmplices sendo, inclusive, duramente criticado pelos defensores do golpe aqui no Brasil (Rede Globo e o Estadão) e no mundo. O golpe em Tegucigalpa é apoiado até pela Organização dos Estados Americanos (OEA) representada pelo seu secretário-geral Miguel Insulza que se reuniu dia 02 de outubro com o golpista Micheletti numa base militar em Honduras. Ora, se o governo brasileiro tivesse hoje a mesma postura que manteve durante a década de noventa, certamente calaria ou (se falasse!) se ladearia aos golpistas. O governo brasileiro mostra mais uma vez que sua política internacional é autônoma e comprometida com novíssimas dinâmicas geopolíticas.
Honduras foi colônia espanhola por mais de trezentos anos, viveu mergulhado em pobreza por quase dois séculos seguintes, depois se torna base de treinamento para os norte-americanos. Agora, quando elegeu democraticamente um presidente que tentava fazer consulta popular para governar em melhor sintonia com o povo, o pequeno país é duramente vitimado por um golpe apoiado pelos mais poderosos do mundo. A triste sina revela muito mais sobre o mundo atual do que se imagina.

sexta-feira, 11 de setembro de 2009

De Olho Na América Latina I - Hugo Chávez, 10 Anos!

Na última década América Latina passou por importantes mudanças, sobretudo em decorrência da emergência ao poder de grupos pouco, ou menos, alinhados às tradicionais posturas subservientes adotadas por países de colonização tardia. Exemplo contumaz desta perspectiva é o aniversário de 10 anos de Hugo Chávez a frente da Venezuela. O feito de Chávez é pra lá de complexo e deve ser bem melhor observado.
Em 1999 foi eleito pelas urnas em fevereiro e, logo em novembro, conseguiu aprovar na Assembléia Constituinte Nacional a reeleição para presidente. Ato ousado, pois Chávez ganha o governo em um ambiente já de certa convulsão social que se agrava rapidamente. No ano seguinte Chaves é o primeiro Chefe de Estado que visita o Iraque depois da guerra do golfo. Trataria de questões relativas a petróleo, mas a viajem foi considerada uma ofensa pelos países ricos, especialmente os Estados Unidos com quem as relações diplomáticas com o Iraque não existiam. Paralelo a esse movimento, em 2001, durante a Cúpula das Américas, Chávez impulsiona as críticas a ALCA – Área de Livre Comercio das Américas – e condena a invasão ao Afeganistão, duas grandes questões que tinham como entusiasta principal os Estados Unidos da América. Estava consolidada a rota de colisão entre os interesses venezuelanos e americanos. O gigante “irmão” do norte se incomodara profundamente com a autonomia do governo da pequena Venezuelana.
No ano seguinte o governo de Chávez sofre um revés momentâneo, mas de muita intensidade, passa por um golpe de Estado que o tirou do poder por quase dois dias. Tal golpe, segundo o que foi vastamente noticiado, tinha como artífices as elites venezuelanas da indústria do petróleo e indústria química e as multinacionais que exploravam a região. De volta ao poder, Chávez foi implacável ordenando a ocupação militar das refinarias de petróleo e intensificando o processo de reforma agrária no país.
Mesmo passando o ano de 2003 sobre forte pressão das suas oposições, Chávez lança seu nome às eleições presidências de 2004 e sai vitorioso. Nos anos seguintes Hugo Chávez intensifica as mudanças na Venezuela (o que ele chama de revolução bolivariana) com políticas de transferência de renda, reformas no poder judiciário, campanhas de alfabetização e outras reformas que assistissem às camadas mais pobres daquele país (para a mídia internacional é a sua base eleitoral). A verdade é que entre reformas, xingamentos ao então presidente Bush (chamou de El Diablo durante reunião da ONU), visitas ao Irã (tido pelos estados Unidos como um país do “eixo do mal” e críticas a Israel (país apoiado pelos Estados Unidos em suas investidas contra os palestinos), Hugo Chávez Frias é eleito novamente com um sufrágio de quase dois terços da população no final de 2006.
Em 2007, Chávez enfrenta com espírito democrático a sua derrota em plebiscito para reformar a Constituição Venezuelana, apesar da oposição e seus poderosos inimigos internacionais se sentirem fortalecidos com isso.
Com 10 anos completos ocupando pela via democrática o Palácio de Miraflores – sede do governo da Venezuela, Hugo Rafael Chávez Frias desponta como um dos mais importantes chefes de Estado do mundo, figurando na revista Times por dois anos consecutivos (2005 e 2006) como uma das 100 pessoas mais influentes do mundo. Hoje, com 55 anos de idade, o polêmico presidente demonstra energia e goza de credibilidade junto à população. Num esforço faraônico as elites latino-americanas e os poderosos inimigos que Chávez fez ao longo de sua trajetória tentam igualar o seu governo ao governo golpista de Honduras. Tal comparação é, no mínimo, um impropério. Alem do mais, os Venezuelanos travaram duras disputas nos últimos dez anos e Chaves sempre foi referendado pela via do voto (bem na tradição da democracia burguesa ocidental), e tem poderosos inimigos que também trama golpes e difamam.
O presidente Hugo Chaves é um Chefe de Estado legítimo e representa um momento profícuo de transição porque passa todo continente.

domingo, 30 de agosto de 2009

Sierguéi Iessiênin



Amigos,


na qualidade de amante destemido de uma boa poesia, “fuçava” sem piedade a internet atrás de coisas diferentes para saborear nas tardes de domingo. Foi no Portal Vermelho, que achei um poema bem intenso intitulado A Confissão De Um Vagabundo que divido aqui com vocês.
Mas antes de passar ao banquete é oportuno registrar umas breves palavras sobre o autor da pérola. O russo Sierguéi Iessiênin nasceu em outubro de 1895 e nem bem se completavam 30 anos do seu surgimento, o expoente da poesia russa moderna se enforcou num quarto de hotel durante uma madrugada fria. Na sua breve vida foi casado por cinco vezes, entre elas uma bailarina famosa e a neta de Tolstoi. O poeta jovem compôs em várias fases diversos poemas que, entre internações em manicômio devido a inúmeras extravagâncias e a depressão que o leva ao vício em álcool e cocaína, lhe tornaram admirado por gente como Mayacovsky e lido até os dias atuais.
Longe de fazer qualquer apologia ao “estilo de vida” auto-destrutivo de Iessiênin faz-se necessário reconhecer que o poeta deixa por meio de suas palavras uns bálsamos de beleza e irreverência que precisão ser sorvidos como um pequeno tesouro deixado por mais um poeta russo.




Que se aproveite o poeta pelo melhor que ele tem...




A confissão de um vagabundo*

Nem todos sabem cantar,



Não é dado a todos ser maçã



Para cair aos pés dos outros.
Esta é a maior confissão



Que jamais fez um vagabundo.
Não é à toa que eu ando despenteado,



Cabeça como lâmpada de querosene sobre os ombros.



Me agrada iluminar na escuridão



O outono sem folhas de vossas almas,



Me agrada, quando as pedras nos insultos



Voam sobre mim, granizo vomitado pelo vento.



Então, limito-me a apertar mais com as mãos



A bolha oscilante dos cabelos.
Como eu me lembro bem então



Do lago cheio de erva e do som rouco do amieiro,



E que nalgum lugar vivem meu pai e minha mãe,



Que pouco se importam com meus versos,



Que me amam como a um campo, como a um corpo,



Eles, com seus forcados, viriam aferrar-vos



A cada injúria lançada contra mim.
Pobres, pobres camponeses,



Por certo, estão velhos e feios,E ainda temem a



Deus e aos espíritos do pântano.



Ah, se pudessem compreender



Que o seu filho é, em toda a Rússia,



O melhor poeta!Seus corações não temiam por ele



Quando molhava os pés nos charcos outonais?



Agora ele anda de cartola



E sapatos de verniz.
Mas sobrevive nele o antigo fogo



De aldeão travesso.



A cada vaca, no letreiro dos açougues,



Ele saúda à distância.



E quando cruza com um coche numa praça,



Lembrando o odor de esterco dos campos nativos,



Lhe dá vontade de suster o rabo dos cavalos



Como a cauda de um vestido de noiva.

Amo a terra.



Amo demais minha terra!



Embora a entristeça o mofo dos salgueiros,



Me agradam os focinhos sujos dos porcos



E, no silêncio das noites, a voz alta dos sapos.



Fico doente de ternura com as recordações da infância.



Sonho com a névoa e a umidade das tardes de abril,



Quando o nosso bordo se acocorava



Para aquecer os ossos no ocaso.



Ah, quantos ovos dos ninhos das gralhas,



Trepando nos seus galhos, não roubei!



Será ainda o mesmo, com a copa verde?



Sua casca será rija como antes?
E tu, meu caro



E fiel cachorro malhado?!



A velhice te fez cego e resmungão.



Cauda caída, vagueias no quintal,



Teu faro não distingue o estábulo da casa.



Como recordo as nossas travessuras,



Quando eu furtava o pão de minha mãe



E o mordíamos, um de cada vez,



Sem nojo um do outro.
Sou sempre o mesmo.



Meu coração é sempre o mesmo.



Com as centáureas no trigo, florem no rosto os olhos.



Estendendo as esteiras douradas de meus versos



Quero falar-vos com ternura.
Boa noite!Boa noite a todos!



Terminou de soar na relva a foice do crepúsculo...



Eu sinto hoje uma vontade louca



De mijar, da janela, para a lua.
Luz azul, luz tão azul!



Com tanto azul, até morrer é zero.



Que importa que eu tenha ar de um cínico



Que pendurou uma lanterna no traseiro!



Velho, bravo Pégaso exausto,



De que me serve o teu trote delicado?



Eu vim, um mestre rigoroso,



Para cantar e celebrar os ratos.



Minha cabeça, como agosto,



Verte o vinho espumante dos cabelos.
Eu quero ser a vela amarela



Rumo ao país para o qual navegamos.

*1920 - (Tradução de Augusto de Campos)
Poesia russa moderna – Nova antologiaTraduções de Augusto e Haroldo de Campos Com a revisão ou colaboração de Boris SchnaidermanEditora Brasiliense – edição 1985

segunda-feira, 24 de agosto de 2009

Alterações na LDB

A caracterização do profissional em educação básica no Brasil é concebida por meio da Lei de Diretrizes e Bases da Educação – LDB, Lei 9394/96, que prevê em seu artigo 61 que “Consideram-se profissionais da educação escolar básica os que, nela estando em efetivo exercício e tendo sido formados em cursos reconhecidos”. A citada lei entende ainda no seu artigo 62, com destaque, que: “A formação de docentes para atuar na educação básica far-se-á em nível superior, em curso de licenciatura, de graduação plena, em universidades e institutos superiores de educação, admitida, como formação mínima para o exercício do magistério na educação infantil e nas quatro primeiras séries do ensino fundamental, a oferecida em nível médio, na modalidade Normal”. Mais adiante, no Parágrafo 1º do artigo 67, o texto da lei indica que “A experiência docente é pré-requisito para o exercício profissional de quaisquer outras funções de magistério, nos termos das normas de cada sistema de ensino”.
Os fragmentos acima apresentados têm relação direta com a concepção de profissionais e, sobretudo, com a concepção hegemônica de educação no país. Tal redação foi estabelecida pela Lei 12.014 de 06 de agosto de 2009, instituída sob alegação de discriminar as “categorias de trabalhadores da educação”.
Se é importante colocar que as leis não são eternas e precisam ser revistas sempre, é mais importante ainda afirmar que esta nova redação ainda é falha e revela o que o Brasil sempre pensou sobre sua educação. A nova redação da lei escamoteia de uma discussão central na formação dos trabalhadores e trabalhadoras em educação básica: a pesquisa.
Enquanto a lei deixa explicita a obrigatoriedade da experiência (e de fato isso não é menos importante!), não menciona uma vez sequer a necessidade da prática da pesquisa científica como componente tanto da formação como da ação cotidiana dos processos pedagógicos na educação básica. Por traz dessa postura se percebe que a noção de profissional da educação básica é balizada por uma perspectiva tradicional, onde cabe ao professor somente a repetição e transmissão mecânica de conteúdos previamente estabelecidos.
Três coisas, no mínimo, devem ser ditas sobre a questão. Em primeiro lugar, é a pesquisa um elemento indispensável para o desenvolvimento do saber. Sem ela o professor fica resumido a pratica da transmissão de conhecimentos que já é tão criticada por estudiosos do mundo todo, por implicar em desrespeito a capacidade crítica dos atores envolvidos no processo ensino-aprendizagem. Em segundo lugar, se entende que a educação básica é o mínimo de escolaridade possível para uma pessoa pleitear a condição de cidadão e cidadã. Logo, como imaginar a realização, no que compete a educação formal, da cidadania sem a prática da pesquisa enquanto busca crítica e sistematizada de cada vez mais conhecimento? A terceira e última questão tem relação com o fato de a educação básica poder ser um indutor na construção de posturas autônomas de construção do saber. Isso se manifesta com evidência no caso dos professores com sua necessidade de estar em constante formação, e no caso dos alunos que devem se construir capazes de investigar e, principalmente, criticar o próprio conhecimento tratado em sala de aula.
Ainda que seja verdadeiro afirmar que grandes conquistas foram alcançadas durante os últimos anos na área da educação, é uma questão vital para a educação brasileira compreender que a pesquisa dever estar presente em todas as dimensões da educação formal. Principalmente, a pesquisa deve ser componente da formação e concepção do profissional de educação no Brasil em todos os níveis.

segunda-feira, 27 de julho de 2009

Filmes sobre o Mundo do Trabalho

Amigos,
Recebi por e-mail do Professor Mário Ângelo (Geografia - UFPI) esta rtelação de filmes sobre relações de trabalho. MUITO BOM!!! Este material está publicado da página da Força Sindical na web em Atualizado em 24-Jul-2009 e pode ser acessado para ver as capas dos DVDs.



________________________________________
Foi apenas um sonho Revolutionary Road
2008, EUA
Sam Mendes
Com Leonardo DiCaprio, Kate Winslet, Kathy Bates
O comentário que mais se observa sobre Foi Apenas um Sonho é a tacanha constatação do reencontro do casal Leonardo DiCaprio e Kate Winslet, par romântico de Titanic – a tragédia de ouro da indústria do cinema. Eu mesma me peguei lembrando daquela aguaceira toda ao vê-los atuando juntos novamente. Mas essa é uma maneira inusitada e fora de foco de começar a falar deste filme. Até mesmo os atores já se livraram deste fardo e já se renovaram muitas vezes, não precisando mais provar que são mais do que modelos de beleza.

________________________________________
O lutador (The Wrestler)
2008, EUA
Darren Aronofsky
Com Mickey Rourke, Marisa Tomei, Evan Rachel Wood
A proposta de The Wrestler não é falar da liturgia da luta livre, como foi com a seqüência de Rocky Balboa e com The Champ, o dramático campeão – obras que retratam o boxe de maneira extremamente romanceada.
________________________________________
The Godfather II - O Poderoso Chefão 2
EUA, 1972
Francis Ford Coppola
Com Robert De Niro, Al Pacino, Diane Keaton
Entre os séculos XVII e meados da década de 1980 europeus migraram em massa para os Estados Unidos. Marcada por guerras, conflitos e pobreza a Europa foi deixada por uma enorme quantidade de pessoas que cruzaram o Atlântico para "fazer a América". No final do século XIX, os anglosaxões foram superados pelos imigrantes do Sul da Europa, em sua maioria italianos. Entre 1870 e 1980 entraram 5,3 milhões de italianos nos Estados Unidos.
________________________________________
Zodíaco (Zodiac)
EUA, 2007
David Fincher
Com Jake Gyllenhaal, Mark Ruffalo, Anthony Edwards, Robert Downey Jr., Brian Cox
Como se faz um bom trabalho? Tal questão, que nos convida a pensar sobre o sentido do que fazemos, é o fio da meada a partir do qual comecei a refletir sobre o filme Zodíaco.
________________________________________
Em busca da felicidade (The Pursuit of Happyness)
EUA, 2006
Gabriele Muccino
com Will Smith, Jaden Smith, Thandie Newton
O cubo mágico, aquele quebra-cabeça tridimensional em que se deve encaixar as cores, é a metáfora da condição de Chris Gardner (Will Smith), no filme Em Busca da Felicidade. Desempregado, abandonado pela mulher e com um filho para criar Gardner luta obstinadamente para entrar no mercado de trabalho.

________________________________________
Gran Torino
EUA, 2008
Clint Eastwood
A satisfação de ver um verdadeiro bom filme, e não um filme que quase chega lá, me levou a buscar o que já foi escrito sobre Gran Torino. As análises que encontrei confirmam o talento de Eastwood tanto como ator, quanto como diretor. Mas não entram a fundo no coração da história de Walter Kowalski. Em suas entrelinhas o filme vai além da história de um aposentado rabugento, ex-operário da indústria automotiva e ex-combatente da Guerra da Coréia (1950-53) que, com a recente morte da mulher se vê obrigado a lidar com os orientais, descendentes de Hmong que migraram para os Estados Unidos após a guerra do Vietnã.

________________________________________
Tropa de Elite
Brasil, 2007
José Padilha
Com Wagner Moura, Fernanda Machado
Por ironia do destino antes mesmo de seu lançamento o filme Tropa de Elite vazou para o mercado pirata, ramificação de uma das maiores organizações criminosas do país. O Ibope estimou que mais de 11 milhões chegaram a assistiram a cópia pirata do filme antes de sua estréia no cinema. Fato que não abafou o sucesso nas bilheterias. O filme obteve uma das maiores médias por sala no ano, com mais de 1000 espectadores por sala na primeira semana. Meses após a ebulição da estréia, o que permaneceu da obra? Com a distância do tempo Tropa de Elite merece um olhar mais crítico e realista.

________________________________________
Linha de Passe
2008, Brasil
Walter Salles
Com: Sandra Corveloni, Vinícius Oliveira, João Baldasserini, José Geraldo Rodrigues, Kaíque de Jesus Santos
Se em Central do Brasil Walter Salles fez da fórmula: miséria, humanidade, poesia e realidade igual a uma poção de beleza e um convite à reflexão, em Linha de Passe o mesmo cineasta forçou a mão numa visão tacanha e preconceituoso sobre a vida na periferia paulistana. Linha de Passe é o típico filme que leva a classe média remediada aos cinemas e arranca dela o clássico comentário: "é um soco no estomago". Como se um soco no estomago, igual ao que já recebemos de montes valesse alguma coisa.

________________________________________
As pontes de Madison (The Bridges of Madison County)
1995, EUA
Clint Eastwood
Com: Clint Eastwood e Meryl Streep
Fotografia como profissão é um charme. A imagem do fotógrafo, como aquele que lida com a representação simbólica da realidade, com a subjetividade e, sobretudo, com o belo, é a imagem do homem refinado, moderno, despojado das coisas mundanas do dia a dia. No outro extremo, ser dona de casa é uma atividade tão ordinária e estigmatizada que parece estar desprovida de qualquer encanto.

________________________________________
Pão e Rosas (Bread and Roses)
Inglaterra, 2000
Ken Loach
Com: Pilar Padilla (Maya), Adrien Brody (Sam), Elpidia Carrillo (Rosa)
Um comentário sobre o filme Pão e Rosas poderia girar em torno da questão de gênero. Com uma protagonista feminina e sua difícil trajetória no mundo do trabalho capitalista, a questão da mulher, de fato, salta aos olhos para quem assiste ao filme. Mas o processo clandestino de migração, já na cena de abertura do filme, com o precário transporte que cruza a fronteira entre México e Estados Unidos choca, e nos trás à mente às mais vis misérias humanas. Por isso pode-se dizer que a obra em questão trata essencialmente destes dois temas: a migração clandestina e a questão da mulher.
________________________________________
Táxi Driver
EUA, 1976
Martin Scorcese
Elenco: Robert De Niro, Cybill Shepherd, Peter Boyle, Jodie Foster, Harvey Keitel
Quando se assume um trabalho, você se torna aquilo que o trabalho faz de você. Esta frase, dita no filme Taxi Driver, caracteriza o protagonista Travis Bickle (Robert De Niro). Ninguém está falando em traçar um perfil do ofício do taxista. Mas para Paul Schrader, roteirista do filme, esta profissão foi uma boa pista para uma história sobre a violência urbana e psicológica.
________________________________________
2001: Uma odisséia no espaço (2001: A Space Odyssey)
EUA, 1968
Stanley Kubrick
"2001 Uma odisséia no espaço" é um filme que faz jus à máxima de que os clássicos não envelhecem. O passar dos quarenta anos, completos em 2008 desde seu lançamento, o engrandeceu ainda mais.
________________________________________
The Blues Brother (Os irmãos cara-de-pau)
EUA, 1980
John Landis
O blues nasceu como a voz dos escravos dos campos de algodão do sul dos Estados Unidos. Eles cantavam durante as plantações para aliviar a dureza do trabalho. O blues nos EUA, como o samba no Brasil, surgiu das condições intrínsecas dos trabalhadores dos baixos escalões, dos excluídos, dos considerados marginais, nos negros, dos pobres. Ainda que, por sua inquestionável qualidade, este ritmo tenha sido capitalizado pelas chamadas classes dominantes, ele não poderia ter nascido dela, não teria sentido, e ainda, mesmo nos salões nobres o blues carrega a marca forte do trabalhador.
________________________________________
Rosalie vai às compras (Rosalie Goes Shopping)
1989, Alemanha
Percy Adlon
Elenco: Marianne Sägebrecht, Brad Davis, Judge Reinhold, Erika Blumberger, Alex Winter
Objeto profícuo de reflexões de cunho antropológico, sociológico, econômico, cultural etc, o mundo do trabalho é muito mais complexo do que o ofício e as ofertas e demandas de emprego. Ele é base da equação "trabalho, produção, salário, consumo e capital" sobre a qual se organiza a sociedade. Como, então, fazer com que esta equação funcione? Como convencer milhões de pessoas a consumirem? Grosso modo: criando necessidades sobre os objetos produzidos.

________________________________________
Todos os homens do presidente, All the President's Men
1976, EUA
Alan Paluka
Elenco: Robert Redford (Bob Woodward); Dustin Hoffman (Carl Bernstein); Jason Robards (Ben Bradlee); Hal Holbrook (Deep Throat); Frank Wills, o segurança do Watergate que chama a polícia, interpretado por ele mesmo.
Em 1972, Richard Nixon, do Partido Republicano dos Estados Unidos da América, que já havia sido presidente daquele país em 1968, buscou a reeleição. A vitória de Nixon sobre o senador democrata George McGovern foi esmagadora. Um caso emblemático de corrupção, entretanto, marcou esta campanha presidencial. O caso, que ficou conhecido como Watergate foi deflagrado quando cinco pessoas foram detidas ao tentarem fotografar documentos e instalar aparelhos de escuta no escritório do Partido Democrata.
________________________________________
As Vinhas da Ira Grapes of Wrath
1940, EUA
John Ford
Elenco: Henry Fonda – Tom, Jane Darwell – Ma Joad, John Carradine – Casey, Shirley Mills, John Qualen, Eddie Quillan
Casas abandonadas e a terra devastada onde antes havia grandes clãs familiares e plantações a perder de vista. O que houve?
A atmosfera rural que predominou nos Estados Unidos até os anos 1930, foi derrubada pelo vendaval da crise da bolsa de Nova Iorque de 1929. Tal cenário foi retratado por Steinbeck, em seu livro As Vinhas da Ira e, em 1939, por John Ford, no filme homônimo.

________________________________________
O Homem que copiava
2002, Brasil
Jorge Furtado
Em o Homem que Copiava André (Lázaro Ramos) é um rapaz com cerca de vinte anos que trabalha como operador de foto-copiadora em uma papelaria de Porto Alegre. Enquanto copia, ele aproveita para ler alguns fragmentos do que está copiando. Desta forma, coleciona palavras, frases e trechos das mais diversas ordens e completamente desconexos. Sim, ele é o que se chama de um jovem alienado do processo produtivo. Logo no início do filme o personagem de Lázaro Ramos explica, com certo sarcasmo, todos os mecanismos de seu trabalho, ou seja, como funciona a máquina de xerox.
Leia Mais
________________________________________
Oscar Niemeyer – A vida é um sopro
2007, Brasil
Fabiano Maciel
Se conceitualmente o trabalho é a transformação da natureza, a arquitetura é uma de suas imagens mais emblemáticas. Justifica-se, então, a introdução do documentário A vida é um sopro em uma lista de filmes sobre o trabalho.
Mais do que isso, tal inserção justifica-se também por mostrar o lado criativo e prazeroso do trabalho. No filme o já centenário Oscar Niemeyer, um dos melhores arquitetos do mundo e que possui mais de 800 obras, fala de seu trabalho com paixão e idealismo. Este seria o ideal, que o trabalho sempre inspirasse a paixão e o idealismo de construir a sociedade humana.

________________________________________
O Indomável - Assim é minha vida (Nobody's Fool)
1994, EUA
Robert Benton
A história de um trabalhador da construção civil que chegou aos sessenta anos com um histórico de decisões "equivocadas" na vida, que vive em um quarto alugado na casa de Miss Beryl (Jéssica Tandy), sua ex-professora da pré-escola, que depois de muitos e muitos anos sem dar notícias reencontra seu filho através de um acaso que o leva a reconstituir sua vida, poderia ter um nome que sugerisse recomeço ou mesmo compaixão. Contudo, mesmo tratando-se de alguém com este perfil, a história é outra. "O Indomável – Assim é minha vida" conta a história de um homem autêntico e com personalidade forte.
________________________________________
Wall Street, Poder e Cobiça
1987, EUA
Oliver Stone
"A crise demonstra que também no sistema bancário é preciso ser ético. Não é só o cidadão comum que tem que ser ético". No fervor da maior crise financeira dos Estados Unidos desde os anos de 1980, e quiçá, desde 1929, esta frase do presidente Lula na cúpula da ONU, em Nova Iorque (setembro de 08) foi propagada nos principais tablóides de economia e política do Brasil e tratada com atenção pela imprensa estadunidense. Para o New York Times o discurso de Lula refletiu o tom do encontro.
________________________________________
O Diário de Uma Babá (The Nanny Diaries)
2007 EUA
Shari Springer Berman e Robert Pulcini
É no museu de antropologia que esta história começa e acaba. Dado muito importante para compreender o sentido do filme O Diário de uma Babá. Nele, cenas e objetos do cotidiano são colocados em observação.
________________________________________
Os Embalos de Sábado à Noite (Saturday Night Fever)
1977, EUA
John Badham
"A nova geração corre alguns riscos; se forma no colégio, procura um emprego, resiste aos problemas. E uma vez por semana, nas noites de sábado, ela explode." Com estas frases o jornalista Nik Cohn referia-se aos jovens do distrito de Bay Ridge, no Brooklyn, em sua matéria Tribal Rites of the New Saturday Night¹, capa do jornal New York Post, de junho de 1976. Tal artigo inspirou o filme Os Embalos de Sábado à Noite (Saturday Night Fever) de 1977, estrelado por John Travolta e Karen Gorney.
________________________________________
A classe operária vai ao paraíso (La classe operaia va in paradiso)
1971, Itália
Elio Petri
Subir na carreira, garantir o básico daquilo que se pode consumir e almejar pequenas tentações da sociedade de consumo ou arriscar-se na luta por um mundo sem desigualdade social?
Este impasse ideológico de muitos trabalhadores é o mote do premiado A classe operária vai ao paraíso.
________________________________________
O Germinal (Germinal)
1993, França
Claude Berri
"Soco no estômago", expressão que dizemos quando alguma obra de arte nos causa choque e horror, cai bem ao filme Germinal. Produzido em 1993, o filme é baseado no romance francês Germinal de Émile Édouard Charles Atoine Zola, de 1881. Num cenário extrema miséria econômica e degradação humana, a obra relata a realidade dos operários franceses nas minas de carvão, no final do século XIX.
________________________________________
Moça com brinco de pérola (Girl With a Pearl Earring)
2003, Inglaterra
Peter Webber
O quadro do artista Johannes Vermeer chamado Moça com brinco de pérola, pintado entre os anos de 1665/6 virou livro no século XXI e depois ganhou adaptação para o cinema. A partir do enigmático rosto da jovem da pintura a escritora Tracy Chevalier imaginou o contexto que levou o autor e a modelo a realizarem tal obra.

________________________________________
O Carteiro e o Poeta (Il postino)
1994, Itália
Michael Radford
Pode-se dizer que O Carteiro e o Poeta é um filme recente. Foi lançado em 1994, mesmo ano do moderno Tempo de Violência (Pulp Ficition). Entretanto ele não escorregou na pasteurização tecnológica e manteve o ar de clássicos que fizeram escola. Ao analisá-lo encontramos uma referência essencial ao filme Ladrões de Bicicleta de Vitirio De Sica, 1948, obra obrigatória em qualquer filmografia sobre o mundo do trabalho. Assim como da obra de De Sica, o protagonista de O Carteiro e o Poeta, Mario Ruoppolo (Massimo Troisi), é um desempregado que, enfim, encontra uma oportunidade de trabalho para o qual é imprescindível possuir uma bicicleta.
________________________________________
Ladrões de Bicicleta (Ladri di Biciclette)
1948, Itália
Vittorio De Sica
Um dos mais marcantes expoentes do cinema neorealista italiano, o filme Ladrões de Bicicleta se passa logo após o final da Segunda Guerra Mundial. De Sica expõe o drama do desemprego no pós-guerra, em uma Itália, derrotada e em profunda crise econômica. Não há trabalho e o povo está imerso na pobreza.
________________________________________
Mentes Perigosas (Dangerous Minds)
1995, EUA
John Smith
O filme Mentes Perigosas fala das minúcias de um tipo de trabalho. Dos pequenos detalhes que faz com que o trabalhador seja o que é. Neste caso: professor.
A história é baseada em fatos reais, registrados pela verdadeira LouAnne Jonhson no livro "My posse don’t do Homework". O diretor John Smith misturou atores não profissionais com profissionais, dando mais credibilidade ao filme. Leia mais
________________________________________
O Cavaleiro Solitário (Pale Rider)
1985, EUA
Clint Eastwood
O Cavaleiro Solitário não é um clássico do mundo do trabalho. Ele não aborda diretamente a questão operária, nem usa os termos típicos das narrativas das obras que a abordam. Mas pode-se dizer, sem medo de errar, que um sindicalista experiente, ao assisti-lo, logo pode identificar situações muito familiares. Elementos de organização da classe trabalhadora consistem na linha condutora do filme, que evidencia a necessidade da coletividade e da ação conjunta.
________________________________________
Norma Rae (Norma Rae)
1979, EUA
Martin Ritt
Se em alguns filmes o debate sociológico fica subjacente em outros ele aparece como sua própria linha condutora. A construção do enredo do filme Norma Rae, por exemplo, está cravada no trabalho e na sindicalização de uma indústria de tecido. Em torno deste núcleo giram todas as aventuras, descobertas, amores e conflitos da história. Exibido a partir de 1979, época de grande efervescência nas organizações de esquerda, pode-se imaginar o impacto que o filme causou, especialmente no Brasil, que ainda vivia sob a repressão da ditadura militar. A obra já se consagrou como um dos clássicos sobre o mundo do trabalho. Sally Field, que vive a personagem que dá nome ao filme, figurou como modelo para militantes de esquerda da época, muitos dos quais responsáveis pelas conquistas democráticas que desfrutamos hoje.
________________________________________
Ratatouille (Animação)
2007, EUA
Brad Bird
Alguns filmes pretendem explicitamente colocar em debate assuntos da vida humana como o trabalho. Outros são, aparentemente, puro entretenimento, isentos da pretensão de provocar uma reflexão filosófica e sociológica sobre qualquer tema. Contudo é possível perceber questionamentos sobre a vida e a condição humana nas várias formas de expressão artística e estética, tenham elas esta pretensão ou não. O filme de animação Ratatoillie, por exemplo, além de divertido e lúdico, suscita uma reflexão sobre a situação contemporânea do mundo do trabalho. Sobretudo do trabalho dos jovens, que enfrentam a dura contradição entre a dificuldade e a necessidade em arrumar um emprego. Na história o rato Remy, este animal que comumente causa repugnância, principalmente quando relacionado à comida, sonha em ser um grande chef. Ele admira o mais famoso chef parisiense e de maneira autodidata aprende a fazer com maestria os mais sofisticados pratos. Após um inusitado encontro com o garoto Linguini (Lou Romano), que gostaria muito de aprender, mas não sabe cozinhar, é firmada uma parceria e Remy passa a trabalhar no restaurante, escondido sob o chapéu de Linguini. Os talentos do rato Remy garantem o emprego do desajeitado Linguini. Merecem atenção as dificuldades enfrentadas na travessia dos ratos e a conseqüente busca de sobrevivência. A situação é análoga ao despejo e a migração. Em contrapartida a trajetória do rato protagonista Remy (voz de Patton Oswalt) mostra a ousadia e o ímpeto da juventude em buscar novos caminhos e tornar possível o impossível. O filme fala sobre a dedicação e persistência em buscar seus sonhos e sobre a realização pessoal. Fala sobre começar de baixo, enfrentar dificuldades e preconceitos e crescer através do próprio esforço. Além disso Ratatoullie louva a boa gastronomia. Neste caso, mais uma vez, mostrando a grandeza da simplicidade.
________________________________________
Gaijin - Caminhos da Liberdade
1980, Brasil
Tizuka Yamazaki
Em meio às festas comemorativas ao centenário da imigração japonesa para o Brasil, este filme nos faz refletir sobre o contexto e os conflitos em que se deu este processo histórico. A miséria e a falta de perspectivas de trabalho no Japão "empurrou" muitos nativos a emigrarem em busca de oportunidades.
________________________________________
Billy Elliot
2000, Inglaterra
Stephen Daldry
Na década de 1980 o fechamento de muitas minas de carvão da Inglaterra, principal pólo de sustentação econômica em várias cidades, gerou uma forte crise entre os trabalhadores. Esta situação delicada serviu como pano de fundo para produções cinematográficas britânicas, como Brassed Off – Os Virtuosos, The Full Monty – Tudo ou Nada e, mais recentemente Billie Elliot. Vale ressaltar que nos três filmes a saída apontada para a crise do emprego está no mundo das artes.
________________________________________
Erin Brockovich - Uma Mulher de Talento (Erin Brockovich)
1999, EUA
Steven Soderbergh
Leis, justiça e direito são temas centrais do filme que traz para a cena o trabalho do advogado. Mas a história não se limita ao mundo da advocacia, ela aborda também o trabalho dos operários, os prejuízos causados por empresas e a situação da mulher no mercado de trabalho. Julia Roberts vive Erin Brockovich, uma mulher divorciada, pobre e com três filhos. Ao conseguir trabalho no escritório de seu advogado recebe um voto de confiança. Mesmo sem o diploma de advogada, assume um caso que já estava dado como perdido. Ela se envolve tanto com a causa que descobre acidentes ocorridos por falhas de uma grande empresa, que não constavam no processo. Este acidente envolve casos de água contaminada que causava graves doenças nos moradores das redondezas. A história é baseada em fato verídico. O acordo a que os advogados chegaram foi a maior indenização já paga num litígio direto na história dos Estados Unidos, cerca de US$ 333 milhões. O filme mostra um cotidiano duro de trabalho. Ele enfatiza o lado sacrificado de Erin ter de se manter longe de casa e dos filhos por causa do trabalho. O curioso é que quem fica para cuidar das crianças é o namorado George (Aaron Eckhart), um jovem habilidoso e carinhoso. Há aí uma clara inversão de papéis, que reforça o interesse pelo filme. Por fim, trazendo a análise para a lógica dos movimentos sociais, podemos dizer que Erin extrapola as exigências do trabalho tornando-se praticamente uma militante da causa. Sua ação civil com base em ideais e valores faz às vezes da ação sindical.
________________________________________
Tempos Modernos (Modern Times)
1936, EUA
Charles Chaplin
Na década de 1930 a produção em série industrial era o imagem da modernidade, impondo um estilo de vida que se baseava no tempo de trabalho, na hierarquia da do sistema produtivo, e no poder de consumo que cada camada desta hierarquia passou a ter.
Em "Tempos Modernos" Charles Chaplin satiriza a linha de produção do sistema fordista. Um clássico do tema do trabalho, o filme se passa no período imediatamente posterior a depressão econômica de 1929, decorrente da quebra da bolsa de Nova Iorque, quando o desemprego atingiu em cheio a sociedade norte-americana. Nele a "modernidade" figurada na sociedade industrial, urbana, na linha de montagem e especialização do trabalho, é alvo da crítica. No filme o operário, ao conseguir emprego numa grande indústria, transforma-se em líder grevista, e é perseguido por suas idéias "subversivas". O filme trata também das desigualdades entre a vida dos pobres e das camadas mais abastadas.
________________________________________
Sindicato de Ladrões (On the Waterfront)
1954, EUA
Elia Kazan
O filme mostra a corrupção em uma organização sindical dos portuários estadunidenses na década de 1950. Na história o protagonista Terry Malloy (interpretado por Marlon Brando) passa por processo de amadurecimento em relação às questões sociais, ao testemunhar um crime e sair da organização sindical. Desgarrado do grupo, ele compreende a importância da união dos operários. Ele tenta consertar suas ações passadas lutando diretamente contra o sindicato corrupto, cujos chefões se voltam contra ele.
________________________________________
Spartacus
1960, EUA
Stanley Kubrick
O trabalho escravo no Império Romano atingiu proporções de extrema crueldade e exploração do homem. O filme retrata esta situação através da historia de um escravo, condenado à morte por morder um guarda em uma mina na Líbia. Enquanto sonha com o fim da escravidão, labuta para o Império Romano, mas seu destino é mudado por um lanista (negociante e treinador de gladiadores), que o compra para ser treinado nas artes de combate e se tornar um gladiador. Inicialmente as legiões romanas subestimaram seus adversários e foram todas massacradas, por homens que não queriam nada de Roma, além de sua própria liberdade. Até que, quando o Senado Romano toma consciência da gravidade da situação, decide reagir com todo o seu poderio militar.
________________________________________
São Paulo Sociedade Anônima
1965, Brasil
Luís Sérgio Person
A instalação de indústrias automobilísticas estrangeiras no Brasil na euforia desenvolvimentista, no final dos anos 1950, trouxe grandes mudanças na sociedade e na organização do trabalho. Neste filme, Carlos (Valmor Chagas), um jovem da classe média paulistana, começa a trabalhar numa grande empresa e depois aceita um cargo numa fábrica de auto-peças, da qual torna-se gerente. Seu patrão é sonegador de impostos e tem várias amantes. No decorrer da historia Carlos torna-se um típico chefe de família da sociedade burguesa: trabalha muito, ganha bem, consome bens da indústria, mas vive insatisfeito. Sem um projeto de vida ou perspectivas para fugir da condição que rejeita, só lhe resta fugir.
________________________________________
M.A.S.H.
1970, EUA
Robert Altman
O filme mostra, de maneira inusitadamente leve e descontraída, o trabalho dos médicos cirurgiões, no socorro aos feridos na Guerra da Coréia (1950 a 1953). Dois jovens cirurgiões, Duke (Tom Skerritt) e Hawkeye (Donald Sutherland), protagonizam a história, que mostra as relações de trabalho: hierarquia, turnos etc, mesmo durante a guerra. A rotina de horror e sangue é abordada com ironia. Desta forma o filme mostra os subterfúgios dos médicos, salvando seus companheiros da morte, perante as situações chocantes em que se encontram os feridos de guerra.
________________________________________
Eles não usam black tie
1981, Brasil
Leo Hirszman
Além de seu valor artístico e estético, o filme registra, através da história fictícia sobre a relação entre o operário e líder sindical Otávio e seu filho, o jovem operário Tião, a vida operária e da ocorrência da greve dos metalúrgicos de São Paulo em 1979 no período final da ditadura militar no Brasil (1964/1985).
A luta de classes, a exploração da mão de obra e a velha contradição entre o capital e o trabalho – mostrando vidas em que o trabalho é pesado e o dinheiro é escasso dão base para a história, que gira em torno da relação entre o operário e líder sindical Otávio e seu filho, o jovem operário Tião.
________________________________________
Hoffa, Um homem, uma lenda
1992, França, Paris
Danny DeVito
O filme mostra os dilemas e contradições do líder sindical Jimmy Hoffa, interpretado por Jack Nicholson, mostrando a luta apaixonada de Hoffa para constituir o mais influente sindicato trabalhista dos EUA, seu relacionamento com a Mafia. O roteirista David Mamet combina indivíduos reais com personagens de ficção.
________________________________________
Ou tudo ou nada (The Full Monty)
1997, Reino Unido
Peter Cattaneo
A partir da década de 1970, no processo de transição da indústria pesada para a automatizada, multiplicou-se o número de trabalhadores que não puderam mais ser absorvidos pelo sistema produtivo. O fechamento de indústrias das cidades da Inglaterra, no processo de desindustrialização, levou enorme contingente de operários ao desemprego. O filme mostra seis homens, ex metalúrgicos, sem perspectivas e desesperados por dinheiro, na cidade chamada Shenffild, que se conhecem em uma agência de empregos e, como alternativa, concluindo que o único bem que possuem é o próprio corpo, decidem realizar um show de striptease.
________________________________________
Segunda Feira ao Sol (Los Lunes Ao Sol)
2002, Espanha
Fernando Leon de Aranoa
Segunda feira ao sol trata do desemprego de longa duração, de ofícios que tornam-se obsoletos, postos que tornam-se extintos etc. Simbolicamente trata-se de homens e mulheres que não conseguem encontrar um lugar ao sol. O filme está contextualizado no período subseqüente à década de 1980, quando uma nova divisão internacional do trabalho causou com impacto significativos em alguns setores industriais em países de capitalismo avançado como Espanha e Reino Unido. O agudo processo de desindustrialização e de reconversão produtiva que atingiu o mundo do trabalho, contribuiu para o aumento significativo do desemprego em massa e do desemprego de longa duração, isso sem falar no processo de precarização do trabalho que gerou. Isso se traduziu em uma grave desvalorização da chamada mão de obra. Grande contingente de ex-operários, vítimas da globalização do capital e das mutações do capitalismo global, viram-se obrigados a buscar inserções precárias no mercado de trabalho no crescente setor de serviços. Aranoa representa, em suas personagens, subprodutos desta etapa excludente do capitalismo.
________________________________________
Peões
2004, Brasil
Eduardo Coutinho
Documentário sobre a história pessoal de trabalhadores da indústria metalúrgica do ABC paulista que tomaram parte no movimento grevista de 1979 e 1980, mas permaneceram em relativo anonimato. Eles falam da conciliação da atividade sindical com a vida pessoal, da atual dificuldade de recolocação em diversos setores da indústria metalúrgica, de sua participação no movimento e dos caminhos que suas vidas trilharam desde então. Exibem souvenirs das greves, recordam os sofrimentos e recompensas do trabalho nas fábricas, comentam o efeito da militância política no âmbito familiar, dão sua visão pessoal de Lula e dos rumos do país. O filme foi rodado no período final da campanha presidencial de 2002.
________________________________________
O diabo veste prada (The devil wears Prada)
2006, EUA
David Frankel
Mesmo nos meios mais elitistas pode-se perceber a repetição da hierarquia e do modo de produção do sistema capitalista. É o caso da chamada "indústria da moda". O filme, O Diabo Veste Prada, mostra, por um lado, a cruel concorrência do mercado de trabalho e os abusos dos patrões com seus funcionários e, por outro, a preparação de uma funcionária pela sua chefa. A história gira em torno do dia a dia e uma funcionária recém admitida por uma famosa revista de moda. Situações como: acirra competição, exigências do "mercado", uso de tecnologias, e regras como: o que vestir, o que comer, com quem se relacionar, como e quando dirigir-se à sua superior são colocadas. O trabalho torna-se um estilo de vida. Com o uso do telefone celular, por exemplo, a editora aciona sua assistente a qualquer hora e por qualquer motivo. Implicações editada pela poderosa Miranda Priestly (Meryl Streep), mas tem sérios problemas com as exigências do novo emprego, incluindo as tarefas absurdas ordenadas pela chefa.

sexta-feira, 5 de junho de 2009

Sobre a Coréia do Norte

A Coréia é dessas nações que intrigam o mundo ocidental. Nem bem os Estados Unidos elegeu seu “novo presidente bonzinho”, sob a nuvem negra de uma crise econômica, ainda reaparecem os norte-coreanos com aquela história de mísseis nucleares. Vaga fantasmagoricamente pelo imaginário dos comentaristas de noticiários internacionais que a chamada “ameaça nuclear coreana” pode ser somente mais um blefe, pois a nação já teria feito isso antes para barganhar nas suas relações internacionais. Então, uma boa pergunta seria: o que existe de novo com a Coréia do Norte para que a mesma mereça a atenção do mundo?
A resposta para a indagação acima não é simples, mas pode ser costurada aqui em linhas gerais.
Em primeiro lugar não há nada de novidade na Coréia do Norte, é verdade. Mas com o mundo há sim! A crise econômica global que está colocando em ‘cheque-mate’ até a maior potência do mundo não chegou sozinha. Chegou sob ameaça de uma ‘crise dos alimentos’, uma ‘crise do petróleo’ e uma ‘crise energética’. Isso sem falar na espetacular crise moral em que se meteu a maior potencia do mundo com Clinton e depois Bush em suas gestões sutilmente diferentes em truculência e igualmente desastrosas em política econômica. O mundo está atônito e em busca de novos caminhos, muito embora os sinais na economia demonstrem que esses caminhos estão longe de serem encontrados.
Outra novidade do nosso tempo é o embrutecimento, por meio da militarização, que os Estados Unidos iniciaram na gestão Bush e Obama ainda é muito vacilante em fazer recuar. Tal militarização pode ser vista pelo saldo bélico da estadunidense com a reativação da Quarta Frota, ocupação dos territórios do Afeganistão e do Iraque, Plano Colômbia, e mais de uma centena de bases militares pelo mundo inteiro. Para tal ação surgem as reações em forma de hostilidade e exemplo disso seria o Irã e sua política antiimperialista aglutinando lentamente aliados no Oriente Médio. A Coréia do Norte, com seus testes de satélites e mísseis, se tivessem sua agressividade multiplicada pela enésima potência ainda não significariam muito diante do quanto é agressiva e forte a militarização global protagonizada sob o manto fulo da ‘democracia americana’.
Ainda figuram entre as novas desse tempo doido, alem da ascensão da China que pleiteia a condição de maior potencia econômica mundial, um reordenamento comercial e diplomático que faz emergir um leque de países como Índia e Brasil à cobiçada condição de bons parceiros comerciais. Na medida em que um número maior de países ganha espaço, também se faz necessário ouvi-los quanto a questões importantes para o globo, daí a articulação do G-20, por exemplo.
É nesse contexto que a Coréia do Norte realiza seus testes de lançamento de mísseis e satélites, e põe em funcionamento suas estruturas de geração de energia nuclear. É bom lembrar que quando o Irã tentou conquistar autonomia para produzir energia nuclear o mundo ocidental ficou alucinado. Bom lembrar também que quando o Brasil amadureceu suas técnicas de exploração de energia nuclear, a ONU e outros organismos internacionais forçaram a barra para não permitir isso. Daí é oportuno fazer uma última pergunta: por que a Coréia do Norte não pode fazer desenvolver a sua tecnologia? Por que o mundo insiste em isolar cada vez mais aquela nação que o ocidente acusa de radical e fechada?
Tais perguntas não são respondidas num bate-papo desses, mas uma coisinha precisa ser dita: a civilização, tal como é, ou aprende a respeitar cada povo com suas opções, seus governos, sua história e suas escolhas, ou o já temido e incerto futuro do mundo poderá nem existir.

A rede de contatos