
terça-feira, 27 de janeiro de 2009
terça-feira, 20 de janeiro de 2009
Operação chumbo impune

por Eduardo Galeano [*]
Tudo indica que esta carnificina de Gaza, que segundo seus autores pretende acabar com os terroristas, conseguira multiplicá-los. Desde 1948, os palestinos vivem condenados à humilhação perpétua. Não podem nem respirar sem autorização.
Perderam a sua pátria, as suas terras, a sua água, a sua liberdade, perderam tudo. Nem sequer têm direito a eleger os seus governantes.
Quando votam em quem não devem votar, são castigados. Gaza está a ser castigada. Converteu-se numa ratoeira sem saída. Algo semelhante ao que ocorreu em 1932, quando o Partido Comunista triunfou nas eleições de El Salvador.
Banhados em sangue, os salvadorenhos expiram o seu mau comportamento e desde então viveram submetidos a ditaduras militares. A democracia é um luxo que nem todos merecem
São filhos da impotência os foguetes caseiros que os militantes do Hamas, encurralados em Gaza, disparam com má pontaria sobre as terras que haviam sido palestinas e que a ocupação israelense usurpou. E o desespero, à margem da loucura suicida, é a mãe das bravatas que negam o direito de Israel à existência, gritos sem nenhuma eficácia, enquanto a muito eficaz guerra de extermínio está a negar, desde há anos, o direito à existência da Palestina.
Já pouca Palestina resta. Passo a passo, Israel está a apagá-la do mapa. Os colonos invadem e atrás deles os soldados vão corrigindo a fronteira. As balas sacralizam o roubo, em legítima defesa. Não há guerra agressiva que não diga ser guerra defensiva. Hitler invadiu a Polónia para evitar que a Polónia invadisse a Alemanha. Bush invadiu o Iraque para evitar que o Iraque invadisse o mundo. Em cada uma das suas guerra defensivas, Israel devorou outro pedaço da Palestina, e os almoços prosseguem. A devoração justifica-se pelos títulos de propriedade que a Bíblia concedeu, pelos dois mil anos de perseguição que o povo judeu sofreu e pelo pânico que geram os palestinos à espreita.
Israel é o país que jamais cumpre as recomendações nem as resoluções das Nações Unidas, o que nunca acata as sentenças dos tribunais internacionais, o que se burla das leis internacionais, e é também o único país que legalizou a tortura de prisioneiros. Quem lhe deu o direito de negar todos os direitos? De onde vem a impunidade com que Israel está a executar a matança de Gaza? O governo espanhol não terá podido bombardear impunemente o País Vasco para acabar com a ETA, nem o governo britânico terá podido arrasar a Irlanda para liquidar o IRA.
Acaso a tragédia do Holocausto implica uma apólice de eterna impunidade? Ou esse sinal verde provém da potência mandona que tem em Israel o mais incondicional dos seus vassalos?
O exército israelense, o de armamento mais moderno e refinado do mundo, sabe a quem mata. Não mata por erro. Mata por horror. As vítimas civis chamam-se danos colaterais, conforme o dicionário de outras guerras imperiais. Em Gaza, de cada dez danos colaterais, três são crianças. E somam milhares os mutilados, vítimas da tecnologia do esquartejamento humano, que a indústria militar está a ensaiar com êxito nesta operação de limpeza étnica.
E como sempre, sempre o mesmo: em Gaza, cem a um. Por cada cem palestinos mortos, um israelense.
Gente perigosa, adverte o outro bombardeamento, a cargo dos meios maciços de manipulação, que nos convidam a acreditar que uma vida israelense vale tanto como cem vidas palestinas. E esses meios também nos convidam a acreditar que são humanitárias as duzentas bombas atómicas de Israel, e que uma potência nuclear chamada Irão foi a que aniquilou Hiroshima e Nagasaki.
A chamada comunidade internacional, existe? Será algo mais que um clube de mercadores, banqueiros e guerreiros? Será algo mais que o nome artístico que os Estados Unidos se põem quando fazem teatro? Perante a tragédia de Gaza, a hipocrisia mundial brilha mais uma vez. Como sempre, a indiferença, os discursos vazios, a declarações ocas, as declarações altissonantes, as posturas ambíguas rendem tributo à sagrada impunidade.
Perante a tragédia de Gaza, os países árabes lavam as mãos. Como sempre. E como sempre, os países europeus esfregam as mãos. A velha Europa, tão capaz de beleza e de perversidade, derrama uma ou outra lágrima, enquanto secretamente celebra esta jogada de mestre. Porque a caça de judeus foi sempre um costume europeu, mas desde há meio século essa dívida histórica está a ser cobrada aos palestinos, que também são semitas e que nunca foram, nem são, anti-semitas. Eles estão a pagar, em sangue contante a sonante, uma conta alheia.
*Este artigo é dedicado aos meus amigos judeus assassinados pelas ditaduras latino-americanas que Israel assessorou.
O original encontra-se no semanário Brecha, do Uruguai, e em http://www.resumenlatinoamericano.org , Nº 1159
terça-feira, 6 de janeiro de 2009
Quem financia o Dalai Lama?*
Este ano de 2009, quando se comemora os 60 anos da Revolução Chinesa, será um período de muitas avaliações da aplicação do socialismo com as características chinesas. Elas serão feitas pelos próprios chineses, mas também pelos estadunidenses, como mostra a revista Foreing Affairs, uma espécie de órgão oficioso da política externa dos EUA. Ela dedica parte de sua edição de janeiro/fevereiro à análise da crise econômica e financeira desencadeada a partir dos EUA e o conseqüente enfraquecimento do poder capitalista no mundo. Ao lado desta análise, um artigo de Harold James destaca o crescimento do que ele denomina de ''Modelo Chinês'' de desenvolvimento, e a nova configuração estratégica mundial decorrente do que eles identificam como o maior colapso econômico em 75 anos de história.
Mas há outras fontes que permitem compreender como os EUA se posicionaram frente ao novo regime instalado em Pequim em 1949 e de que forma utilizaram as contradições geradas no Tibet contra o avanço civilizacional proporcionado pelo socialismo. Duas delas são os livros lançados em 2008 sobre o Tibet.
Um deles, de Kenneth Conboy, foi definido por William Leary, um estudioso da história da CIA, como ''um impressionante estudo sobre uma das mais importantes operações secretas da espionagem dos EUA durante a chamada Guerra Fria''. Trata-se de The CIA's Secret War in Tibet (A Guerra Secreta da CIA no Tibet). Ele relata como após a vitória da Revolução Chinesa, em 1949, o Partido Comunista da China tomou o poder no Tibet que, no curso dos dois séculos anteriores, não havia sido reconhecido como independente por nenhum país, e era considerado pela comunidade internacional como parte integrante de China, entre eles a Índia e a Inglaterra. Só os EUA se mostraram vacilantes, mudando a política seguida até a Segunda Guerra Mundial, quando consideravam o Tibet como uma parte da China e procuravam frear os avanços da Inglaterra sobre o território. Mas, após a guerra, Washington mudou, e passou a considerar o Tibet como um enclave religioso, que passou a usar para combater o Governo popular que nascia.
Em 1951, a aristocracia do Tibet concordou em negociar com a China um pacto de convivência, para a transição ao socialismo. Cinco anos depois, no entanto, pressionadas pelo movimento camponês, as autoridades revolucionárias iniciaram uma reforma agrária em alguns territórios tibetanos. Foi a senha para o conflito. A elite local repeliu a iniciativa e, em 1959, provocou um levante armado, revolta que foi preparada durante vários anos, sob a direção do serviço secreto dos EUA, a CIA.
O outro livro, Buddha's Warriors - The story of the CIA-backed Tibetan Freedom Fighters (Os Guerreiros de Budha - A história dos lutadores pela Liberdade no Tibet apoiados pela CIA), de Mikel Dunham, explica como a agência de inteligência levou centenas de tibetanos para os EUA, para treinamento bélico, e como lhes supriu de armas modernas.
O prefácio foi redigido por ''sua Santidade o Dalai-Lama'', que considerou uma honra o fato de que a rebelião separatista armada tenha sido dirigida pela CIA porque, anotou, ''os EUA são os campeões da Democracia e da Liberdade''.
Em outubro de 2008, o parlamento dos EUA entregou ao Dalai-Lama a Medalha de Ouro, a condecoração mais importante que pode conferir a alguém. Sua (sempre sorridente) ''Santidade'' pronunciou um discurso onde louvou Bush por seus ''esforços em nível mundial em favor da Liberdade, da Democracia e dos Direitos Humanos''.
São acontecimentos que deixam evidente quem financia o Dalai-Lama e seus monges, não só por seu anticomunismo hidrófobo como também por seu racismo fascista que condena os casamentos entre tibetanos e os ''demais''.
Eles ajudam, também, a entender a mobilização da mídia ocidental contra a China, toda a agitação feita antes e durante as Olimpíadas em Pequim e a tentativa permanente da aristocracia tibetana, dirigida pelo Dalai-Lama e financiada pela CIA, de criar problemas diplomáticos com o Governo chinês.
Mas há outras fontes que permitem compreender como os EUA se posicionaram frente ao novo regime instalado em Pequim em 1949 e de que forma utilizaram as contradições geradas no Tibet contra o avanço civilizacional proporcionado pelo socialismo. Duas delas são os livros lançados em 2008 sobre o Tibet.
Um deles, de Kenneth Conboy, foi definido por William Leary, um estudioso da história da CIA, como ''um impressionante estudo sobre uma das mais importantes operações secretas da espionagem dos EUA durante a chamada Guerra Fria''. Trata-se de The CIA's Secret War in Tibet (A Guerra Secreta da CIA no Tibet). Ele relata como após a vitória da Revolução Chinesa, em 1949, o Partido Comunista da China tomou o poder no Tibet que, no curso dos dois séculos anteriores, não havia sido reconhecido como independente por nenhum país, e era considerado pela comunidade internacional como parte integrante de China, entre eles a Índia e a Inglaterra. Só os EUA se mostraram vacilantes, mudando a política seguida até a Segunda Guerra Mundial, quando consideravam o Tibet como uma parte da China e procuravam frear os avanços da Inglaterra sobre o território. Mas, após a guerra, Washington mudou, e passou a considerar o Tibet como um enclave religioso, que passou a usar para combater o Governo popular que nascia.
Em 1951, a aristocracia do Tibet concordou em negociar com a China um pacto de convivência, para a transição ao socialismo. Cinco anos depois, no entanto, pressionadas pelo movimento camponês, as autoridades revolucionárias iniciaram uma reforma agrária em alguns territórios tibetanos. Foi a senha para o conflito. A elite local repeliu a iniciativa e, em 1959, provocou um levante armado, revolta que foi preparada durante vários anos, sob a direção do serviço secreto dos EUA, a CIA.
O outro livro, Buddha's Warriors - The story of the CIA-backed Tibetan Freedom Fighters (Os Guerreiros de Budha - A história dos lutadores pela Liberdade no Tibet apoiados pela CIA), de Mikel Dunham, explica como a agência de inteligência levou centenas de tibetanos para os EUA, para treinamento bélico, e como lhes supriu de armas modernas.
O prefácio foi redigido por ''sua Santidade o Dalai-Lama'', que considerou uma honra o fato de que a rebelião separatista armada tenha sido dirigida pela CIA porque, anotou, ''os EUA são os campeões da Democracia e da Liberdade''.
Em outubro de 2008, o parlamento dos EUA entregou ao Dalai-Lama a Medalha de Ouro, a condecoração mais importante que pode conferir a alguém. Sua (sempre sorridente) ''Santidade'' pronunciou um discurso onde louvou Bush por seus ''esforços em nível mundial em favor da Liberdade, da Democracia e dos Direitos Humanos''.
São acontecimentos que deixam evidente quem financia o Dalai-Lama e seus monges, não só por seu anticomunismo hidrófobo como também por seu racismo fascista que condena os casamentos entre tibetanos e os ''demais''.
Eles ajudam, também, a entender a mobilização da mídia ocidental contra a China, toda a agitação feita antes e durante as Olimpíadas em Pequim e a tentativa permanente da aristocracia tibetana, dirigida pelo Dalai-Lama e financiada pela CIA, de criar problemas diplomáticos com o Governo chinês.
*Publicado originalmente no Portal Vermelho
Marcadores:
bush,
china,
dalai lama,
dalai-lama
segunda-feira, 5 de janeiro de 2009
Assinar:
Postagens (Atom)