
No último sábado de aleluia, viajando pelo Piauí, percebi que praticamente todas as comunidades praticavam a malhação do Judas. Foi aí que mi coloquei a refletir sobre a questão. Muito embora a mensagem mais original do cristianismo pouco tenha haver com violência no seu significado mais usual e nada tenha haver com vingança, o ritual de malhação do Judas nada mais é hoje do que uma (entre as muitas que consistem atualmente) forma de apologia a violência.
Observei respeitosamente algumas partes da Bíblia que relatam o momento em que Jesus dá orientações e esclarecimentos finais ao seu colegiado (os apóstolos), logo quando anuncia que seria traído e negado. Tal leitura surpreendentemente branda me mostrou duas coisas: uma primeira tem relação com a mensagem que se resumiria apropriadamente por meio da frase “amem uns aos outros”, num contexto de construção do exemplo de vida; a segunda tem relação com o fato de que, pelo menos não consegui (com minha inexperiência no assunto) detectar um resquício ou rastro sequer de orientação para uma conduta de vingança por parte do exemplo de Jesus. Para alem disso reside também um detalhe deveras oportuno nessas reflexões: Sábado de Aleluia deveria ser um dia de louvar o Senhor, pelo menos pelo significado mais original da expressão ‘aleluia’ – hallelu-yahweh no hebraico.
Num esforço de permanência, inerentemente natural nas mais diversas manifestações culturais, os Judas de palha ou pano recebiam formas, mascaras e nomes de diversas figuras contemporâneas antipáticas para diferentes setores da sociedade. Isso excitava mais ainda os malhadores que desprendiam agora a sua revolta com “mais justificativa”. Sob pauladas, pedradas, chutes e gritaria os bonecos iam sendo postos a baixo e completamente trucidados. Ficando para o dia seguinte somente partes sem forma expostas como ressaca da farra tosca e truculenta que somente aparece nas manhãs do Domingo de Páscoa.
Também é oportuno lembrar que o costume ou tradição de Malhação do Judas, segundo algumas versões viáveis historicamente, foi trazido pelos colonizadores espanhóis e portugueses (aliás, foi sob ordem dos portugueses que gente como Tira Dentes foi esquartejado publicamente, não o seu traidor Silvério dos Reis). A construção de uma cultura de violências tão vastamente explicitada nos dias atuais entre os brasileiros remonta nossa infeliz colonização, pois é primitiva do ponto de vista civilizacional; é também mesquinha no sentido de não generosa, pois se pauta na vingança; e, por último, é covarde porque o Judas (mesmo quando representando os desafetos) está sempre amarrado e imóvel.
Feito as devidas argumentações deve então ficar claro que ritos, costumes e tradições, por mais que se renovem e mudem, cumprem o papel de repassar valores e informações. Os valores tratados na Malhação do Judas expõem o pior que existe na sociedade e, quando envolve crianças (o grande público da zagaia!), educa para a vingança, covardia e violência.
Quando alguém falar por aí em reduzir idade penal ou combater pela força e a massa gigantesca de crianças e adolescentes em conflitos com a lei, vou perguntar se essa pessoa se educou malhando os Judas do Sábado de Aleluia.
Observei respeitosamente algumas partes da Bíblia que relatam o momento em que Jesus dá orientações e esclarecimentos finais ao seu colegiado (os apóstolos), logo quando anuncia que seria traído e negado. Tal leitura surpreendentemente branda me mostrou duas coisas: uma primeira tem relação com a mensagem que se resumiria apropriadamente por meio da frase “amem uns aos outros”, num contexto de construção do exemplo de vida; a segunda tem relação com o fato de que, pelo menos não consegui (com minha inexperiência no assunto) detectar um resquício ou rastro sequer de orientação para uma conduta de vingança por parte do exemplo de Jesus. Para alem disso reside também um detalhe deveras oportuno nessas reflexões: Sábado de Aleluia deveria ser um dia de louvar o Senhor, pelo menos pelo significado mais original da expressão ‘aleluia’ – hallelu-yahweh no hebraico.
Num esforço de permanência, inerentemente natural nas mais diversas manifestações culturais, os Judas de palha ou pano recebiam formas, mascaras e nomes de diversas figuras contemporâneas antipáticas para diferentes setores da sociedade. Isso excitava mais ainda os malhadores que desprendiam agora a sua revolta com “mais justificativa”. Sob pauladas, pedradas, chutes e gritaria os bonecos iam sendo postos a baixo e completamente trucidados. Ficando para o dia seguinte somente partes sem forma expostas como ressaca da farra tosca e truculenta que somente aparece nas manhãs do Domingo de Páscoa.
Também é oportuno lembrar que o costume ou tradição de Malhação do Judas, segundo algumas versões viáveis historicamente, foi trazido pelos colonizadores espanhóis e portugueses (aliás, foi sob ordem dos portugueses que gente como Tira Dentes foi esquartejado publicamente, não o seu traidor Silvério dos Reis). A construção de uma cultura de violências tão vastamente explicitada nos dias atuais entre os brasileiros remonta nossa infeliz colonização, pois é primitiva do ponto de vista civilizacional; é também mesquinha no sentido de não generosa, pois se pauta na vingança; e, por último, é covarde porque o Judas (mesmo quando representando os desafetos) está sempre amarrado e imóvel.
Feito as devidas argumentações deve então ficar claro que ritos, costumes e tradições, por mais que se renovem e mudem, cumprem o papel de repassar valores e informações. Os valores tratados na Malhação do Judas expõem o pior que existe na sociedade e, quando envolve crianças (o grande público da zagaia!), educa para a vingança, covardia e violência.
Quando alguém falar por aí em reduzir idade penal ou combater pela força e a massa gigantesca de crianças e adolescentes em conflitos com a lei, vou perguntar se essa pessoa se educou malhando os Judas do Sábado de Aleluia.