No último final de semana a mídia se ocupou intensamente da cobertura dos eventos relativos ao fatídico 11 de setembro. Reconstituições, filmes e entrevistas marcaram a data mostrando com enfase dramas individuais, atos de heroísmo e etc. Penso que ate sejam essas coisas muito importantes, mas se deve atentar para os desdobramentos políticos. Que lição tiramos da primeira reação americana aos atentados? Quais seus desdobramentos? Depois disso, qual o alvo? Quem venceu? Para que serviram os atentados? Agora, passadas as comemorações do aniversario de 10 anos do 11 de setembro, assisti a diferentes abordagens por meio da mídia. O curioso foi ver as diferentes apropriações, percepções, interpretações e conjecturas a respeito do tema. Nas linhas abaixo, gostaria de mostrar alguns aspectos que me parecem também muito importantes.
No dia 11 de setembro de 2001 o centro do capitalismo mundial sofreu um tenebroso ataque. Aviões se atiravam contra o complexo de duas torres chamado Word Trade Center, em Nova York, Estados Unidos. A intentona terrorista prestou ao mundo uma série de feitos. A pergunta talvez seja, numa escala de dez anos, quais os principais acontecimentos teriam mantido relação com os atentados e ao mesmo tempo escruto a história futura dos estados unidos e do mundo.
No momento dos atentados as torres gemias, o governo de George W. Bush saíra de uma eleição cercada de obscuridade e que suscitara quase uma dezena de recontagens, tornando impreciso o resultado de sua disputa com AL Gore. Pois muito bem, logo depois dos atentados, precisamente falando: no dia 20 de setembro de 2001, como povo americano imerso no medo, o presidente Bush fez um discurso no congresso americano onde duas coisas importantes aconteceram: a primeira é que ele foi aplaudido de pé por Democratas e Republicanos; a segunda é que foi lançada a doutrina Bush.
De certa forma os atentados confeririam a Bush a legitimidade que as urnas não deram. Estava superada qualquer dúvida sobre sua vitória eleitoral. Ela, portanto, seria construída no cotidiano do enfrentamento ao chamado “terrorismo”. Do nascedouro da Doutrina Bush – como intitulou a própria Condoleezza Rice, destacada assessora daquele governo, ficou afirmado que nenhuma nação teria o direito de ultrapassar economicamente ou militarmente os Estados Unidos, alem disso estava declarada a guerra contra o terror consumada na máxima “quem não está conosco está contra nós(com o terror!)”. Isso quer dizer que os Estados Unidos consideraria inimigo – terrorista – qualquer um que não colaborasse prontamente com a beligerância americana. Importante lembrar que a máxima anterior se apoiaria na ideia de que a simples suspeita já autorizava os Estados Unidos a atacar.
Logo depois vieram duas importantes ações do governo Bush. Em primeiro lugar um regime de segurança máxima impôs internamente a suspensão dos chamados 'direitos civis' que pareciam tão caros para os americanos. Assim, a simples suspeitas de alguma relação com o “terrorismo” era o suficiente para perseguições, interrogatórios e prisões. De certa forma até execuções eram permitidas, basta lembrar que em Londres, numa situação bem menos tencionada, mas numa lógica de alarme parecida, o brasileiro Jean Charles foi executado, mesmo sendo totalmente inocente. Alem do ataque aos direitos civis em solo americano, outro fato seguinte aos ataques foi a invasão do Afeganistão. No dia 7 de outubro de 2001 os Estados Unidos da América, subleva uma ordem da ONU e inicia a invasão do Afeganistão com o apoio de um agrupamento rebelde interno que, até aquele momento, nem os afegãos acreditavam que existia. A “Operação Liberdade Duradoura,”, como intitulou o governo americano, e toda a intervenção militar americana foi dividida com a OTAN algum tempo depois. O assassinato de Bim Ladem 10 anos depois, era o objetivo propagandeado pelos invasores. Assim, a invasão parece ter custado muito caro e ter demorado a mostrar o seu sucesso. A experiencia guerreira norte americana não rendeu ao governo Bush tal grande aprovação. A imagem esquecida até pouco tempo dos jovens filhos da América, voltando da guerra em sacos pretos fechados no frio zipper da guerra – tal como no Vietnã – estava de novo nos jornais revelando novamente a fragilidade humana da grande potencia imperialista. Internamente, o Afeganistão, para alem do governo talibã era um povo que, sentindo-se aviltado pela invasão, reagiu e forjou seus heróis fazendo revelar a fraqueza da tática americana de soldados super armados enfrentando um povo.
Depois das reações imediatas, um novo passo era necessário: Em 11 de março de 2003 o Estados Unidos invade o Iraque. Tal como no Afeganistão, a flâmula midiática que refletia o objetivo da incursão era a caça à Ossama Bim Laden, no Iraque a bandeira era o impedimento do uso das armas de destruição em massa. Tanto quanto Bim Ladem vivo estava e ficou por dez anos, como as armas de destruição em massa nunca foram encontradas. A invasão do Iraque também matou e deixou sequelados um número grande de americanos. Em síntese, tanto a captura das armas de destruição em massa – que nunca encontraram arma nenhuma, quanto a execução de Sadan, não impuseram fim a guerra e os gastos militares aumentavam impiedosamente. O que se pensava ser o Grand Finale da novela no Iraque, a execução de Sadan, não resolveu o problema de imagem de Bush, somente lhe fez mais antipático e desastrado frente aos olhos do mundo.
As duas aventuras militares custaram muito. Ate hoje, segundo estudos preliminares, ultrapassaram e muito a quantia suntuosa de U$ 4 trilhões de dólares as investidas militares americanas (1) ao lado dos grandes gastos com as guerras Oriente Médio Essa quantia, que não é pequena mesmo em conflitos de escala global, impôs aos cofres americanos um ritmo intenso sufocante.
Nesse clima a reeleição de Bush contra John Kerry foi apertadíssima, revelando a reprovação popular de suas práticas. Ao lado de grandes custos da guerra apareceu para complicar o meio de campo do governo Bush a crise econômica de 2007 – 2008 que terminou de fazer aparecer as fragilidades do império.
Se as guerras dão grande despesa a saída é cortar gastos sociais, e se as despesas co guerra e gastos sociais são grandes, o cenário de crise econômica agrava radicalmente todo o cenário.
A crise econômica e as despesas de guerra promovem o cenário de retomada do desgaste da imagem de Bush, onde um país que fica mais pobre reclama de seu presidente mais argúcia e resolutividade. Fato que, como consequência de todas essas combinações o governo de Bush acumula grande descrédito e consequentemente muita reprovação . Logo, por ocasião das eleições seguintes o fenômeno festivo, Obama Baby boom (!) se faz presente.
A campanha de Obama explorou os pontos fracos de Bush especialmente no tocante a crise e a guerra. Sua eleição foi a expressão da discordância real da massa de eleitores com relação a gestão de Bush, mas Obama também explorou sem piedade a inconsistência dos resultados das operações militares americanas e chegou até a se comprometer com a retirada de tropas da região.
A vitória de Obama encanta o mundo mas não responde questões importantes sobre a guerra. Muito pelo contrário, com sua ineficácia se consolidando a saída para a Casa Branca é reeditar a imagem de Obama, promovendo um verdadeiro espetáculo em torno da morte de Osama Bim Ladem. O novo Obama também participou de todas as comemorações do 11 de setembro, se aproveitando também da dor e do medo do povo americano para fazer seu jogo midiático.
De dez anos pra cá os atentados se mostram atuais e a ameaça de sua repetição continua sendo usada para fortalecer governos incapazes de resolver os verdadeiros problemas do povo americano.
(1) Custo da guerra: http://g1.globo.com/jornal-nacional/noticia/2011/09/custos-da-guerra-pos-atentados-do-1109-podem-chegar-us-4-trilhoes-diz-professora-de-harvard.html

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